25 julho 2026

A chuva, que transporta a fuga

A esfera, a espuma inversa, o

orgulho cometido e despido da imagem no espelho, a lima

afasta o silêncio da mão

da espada

a lírica cansada

e afectiva do despertar

do viver

no estar.

 

Ninguém percebe a razão e a mão

que afasta a sombra e que é a forma e

o beijo

no corpo sentido

do corpo e do desejo.

 

A chuva, que transporta a fuga,

e a janela e a porta

de acesso à esfera

no corpo e do corpo, na lua dispersa pelo

tecto da algibeira, o rio assaz e

transvertido de medo

de sono

e a confusa campânula

e quase mínima distância

percorrida

o ter-te

o abraçar-te

na miséria da minha vida.

 

25/07
20:13

A solidão abstracta da chuva mão

Quando leio o teu corpo nu na solidão abstracta 

Da chuva mão que banha os teus seios 

E semeia nos teus olhos 

A madrugada já extinta 

Já amordaçada 

Na água gélida do húmido teu corpo,


O dia corre na infinita e quase flor 

E aperta o teu cabelo sentindo 

O vento e o desejo

E a dor inventando na sombra 

O destino, o meu 

Em amar-te,


E não me canso que às vezes tão cansado estou 

E faminto o serei eternamente

De ler o teu corpo nu na solidão abstracta da chuva mão 

Sentir-te, amor meu

Não poder eu te tocar 

Como se a minha mão fosse uma nuvem de algodão.



25/07

12:49

A saliva do teu olhar

Nas margens dos teus seios, da saliva do teu olhar

O inverno sentido, despido

Quase a viagem do luar

Quase a solidão do sem-abrigo

 

A cidade inventada

Na deserta luz que traz a candeia

Nas margens dos teus seios, a boca desgovernada

Quando a sombra avassala a aldeia

 

E a sala no silêncio de uma lareira

Não é desejo, não é nada

E é quase nos teus seios onde se esconde a ribeira

 

E a montanha de um sonhar

Das margens dos teus seios, na mão desassossegada

Os teus seios são o pão e a alegria do mar.

 

25/07
07:10

Nas mãos do mar, tem o mar

Nunca saberei o que pensas no silêncio da noite.

 

Nas mãos do mar, tem o mar

Muitos mares, e mãos

E pedacinhos de chuva, em triste descida

Tem o mar, e o outro mar

Gente graúda, e miúda, e assim-assim

E também gente malvestida

 

Nas mãos do mar, tem o mar

Sonhos

Tem o mar, e mar

As canções do vento

Que o mar, é santo

Que o mar, é veneno

No cianeto destino de amar

 

No mar das mãos, tem o mar

A sagrada vertigem de um olhar

Tem o mar a dor, dor na infinita lágrima

Tem na mão, o mar

A mão destino, a mão menino

No mar da mão, tem o mar

Outro mar

Mais mar

Do que o mar, de amar

O mar da tua mão.

 

25/07
01:04

24 julho 2026

Uma algema de insónia cansada

O nove, que diz

Ser

Filho do dezanove

Quanto à mãe

Mulher mãe trinta e nove

 

E que chove

Que dança na soberba dança que já não dança

Dançar sobre o gelo, até

Até ao mar em degelo

E o nove já tem idade

O nove já viveu numa cidade

O nove foi soldado nove vezes três

 

O problema?

A raiz quadrada de nove, é três

O pai mais o filho mais a pomba, sem nome

São por todo o lado, as balas

As espadas madrugadas, os silêncios

O esperma já cansado, espera

Vírgula, avariada

 

O nove, que diz

Ser

Neto do noventa e nove

E seja o que for, seja director

Ou lá aquilo que seja

Mas que o seja, com rigor

Que o seja

 

Que seja amor, que o seja

Que seja uma matriz transposta, coitada

Coitada da água, sempre molhada

Sempre

Sempre empenhada, em

Correr para o mar

 

O oiro e a mirra, mirrada

As asas da madrugada, mais uma distancia

Uma sifónia anónima

Que o seja, e que venha na direcção do nada, nada

Enquanto a noite,

 

Uma algema de insónia cansada.

 

24/07
22:19

Leituras & Releituras


O que me dirias?

 

Não sei, o que pensas tu

De mim, assim

 

Louco

Sim, dia,

Dia não,

O que me dirias tu, a mim

Se eu não fosse tão louco, e tão tolo

Como as ervas de um jardim

 

E se a noite, sim, a noite

Não existir nem ser noite, viver a noite outros tempos sofridos

Era a espingarda

Era a esfregona

A sanita turca sempre em alerta

Agarrava os culhões, a gaita

Não fosse aparecer uma ratazana, e

Zás

 

Madrugada fora, um grito

Elas comiam-se no longínquo comboio do sono

Os carris em torque mas à procura de uma bala, ou

Madrugada, ontem

E riscos de sangue esqueciam-se sobre a superfície do mosaico,

Cerâmico, made in feira da ladra

 

E quase ninguém ladrava, apenas as ratazanas, mortas chão fora

A Ajuda era uma merda, merda & Baratas % Ratas

Meia campânula de droga, na casa do Cantinflas, desciam a rua as pilas,

Subiam as escadas, a vergonha, e ontem

E do ontem nada sobrou

O que poderia sobrar, de tão pouco o muito nada

 

Não sei, o que pensas tu

De mim, assim

 

O que me dirias?

 

24/07
21:45

A mãe terra

O pôr-do-mar no sol

Vibrante laranja o céu

A mãe terra

Arde

E depois morre

 

E depois brinca

E desce

E se deita

Na branca areia de uma mão

 

É preciso uma candeia

Correntes em aço

Gesso

Um abraço ou uma prisão

É preciso o pôr-do-mar no sol

Sol na escuridão

 

O pôr-do-mar no sol

Vibrante laranja o céu

A mãe terra

Arde

E depois morre

 

E depois arde

A mãe terra.

 

24/07
06:18