25 julho 2026

A saliva do teu olhar

Nas margens dos teus seios, da saliva do teu olhar

O inverno sentido, despido

Quase a viagem do luar

Quase a solidão do sem-abrigo

 

A cidade inventada

Na deserta luz que traz a candeia

Nas margens dos teus seios, a boca desgovernada

Quando a sombra avassala a aldeia

 

E a sala no silêncio de uma lareira

Não é desejo, não é nada

E é quase nos teus seios onde se esconde a ribeira

 

E a montanha de um sonhar

Das margens dos teus seios, na mão desassossegada

Os teus seios são o pão e a alegria do mar.

 

25/07
07:10

Nas mãos do mar, tem o mar

Nunca saberei o que pensas no silêncio da noite.

 

Nas mãos do mar, tem o mar

Muitos mares, e mãos

E pedacinhos de chuva, em triste descida

Tem o mar, e o outro mar

Gente graúda, e miúda, e assim-assim

E também gente malvestida

 

Nas mãos do mar, tem o mar

Sonhos

Tem o mar, e mar

As canções do vento

Que o mar, é santo

Que o mar, é veneno

No cianeto destino de amar

 

No mar das mãos, tem o mar

A sagrada vertigem de um olhar

Tem o mar a dor, dor na infinita lágrima

Tem na mão, o mar

A mão destino, a mão menino

No mar da mão, tem o mar

Outro mar

Mais mar

Do que o mar, de amar

O mar da tua mão.

 

25/07
01:04

24 julho 2026

Uma algema de insónia cansada

O nove, que diz

Ser

Filho do dezanove

Quanto à mãe

Mulher mãe trinta e nove

 

E que chove

Que dança na soberba dança que já não dança

Dançar sobre o gelo, até

Até ao mar em degelo

E o nove já tem idade

O nove já viveu numa cidade

O nove foi soldado nove vezes três

 

O problema?

A raiz quadrada de nove, é três

O pai mais o filho mais a pomba, sem nome

São por todo o lado, as balas

As espadas madrugadas, os silêncios

O esperma já cansado, espera

Vírgula, avariada

 

O nove, que diz

Ser

Neto do noventa e nove

E seja o que for, seja director

Ou lá aquilo que seja

Mas que o seja, com rigor

Que o seja

 

Que seja amor, que o seja

Que seja uma matriz transposta, coitada

Coitada da água, sempre molhada

Sempre

Sempre empenhada, em

Correr para o mar

 

O oiro e a mirra, mirrada

As asas da madrugada, mais uma distancia

Uma sifónia anónima

Que o seja, e que venha na direcção do nada, nada

Enquanto a noite,

 

Uma algema de insónia cansada.

 

24/07
22:19

Leituras & Releituras


O que me dirias?

 

Não sei, o que pensas tu

De mim, assim

 

Louco

Sim, dia,

Dia não,

O que me dirias tu, a mim

Se eu não fosse tão louco, e tão tolo

Como as ervas de um jardim

 

E se a noite, sim, a noite

Não existir nem ser noite, viver a noite outros tempos sofridos

Era a espingarda

Era a esfregona

A sanita turca sempre em alerta

Agarrava os culhões, a gaita

Não fosse aparecer uma ratazana, e

Zás

 

Madrugada fora, um grito

Elas comiam-se no longínquo comboio do sono

Os carris em torque mas à procura de uma bala, ou

Madrugada, ontem

E riscos de sangue esqueciam-se sobre a superfície do mosaico,

Cerâmico, made in feira da ladra

 

E quase ninguém ladrava, apenas as ratazanas, mortas chão fora

A Ajuda era uma merda, merda & Baratas % Ratas

Meia campânula de droga, na casa do Cantinflas, desciam a rua as pilas,

Subiam as escadas, a vergonha, e ontem

E do ontem nada sobrou

O que poderia sobrar, de tão pouco o muito nada

 

Não sei, o que pensas tu

De mim, assim

 

O que me dirias?

 

24/07
21:45

A mãe terra

O pôr-do-mar no sol

Vibrante laranja o céu

A mãe terra

Arde

E depois morre

 

E depois brinca

E desce

E se deita

Na branca areia de uma mão

 

É preciso uma candeia

Correntes em aço

Gesso

Um abraço ou uma prisão

É preciso o pôr-do-mar no sol

Sol na escuridão

 

O pôr-do-mar no sol

Vibrante laranja o céu

A mãe terra

Arde

E depois morre

 

E depois arde

A mãe terra.

 

24/07
06:18

23 julho 2026

Se senta, e se chateia na berlinda madrugada, quando uma abelha, uma abelha drogada

Se senta, e se chateia na berlinda madrugada, quando uma abelha, uma abelha drogada

No mel-veneno, no líquido intransigente, o grande milagre

Dos olhos do amanhecer

Sentado, ele se levanta e levita

Na insustentável leveza do ser, ou nos amores risíveis

Acordar a brincadeira

 

Da insustentável leveza do ser, o riso e o esquecimento

A madrugada quase gelo, quase linhagem de um nome

Cada erva escondida, cada árvore assassinada ou mordida

E cada homem, com fome

 

Quantas as ruas sem nome, quantas as ruas sem gente

Se senta, e se chateia na berlinda madrugada, e já não sente

A presença de sua amada, a equação mais abstracta, e mais parva

O ser, e o estar

Sentado à lareira, ouvindo a voz da escuridão

Saltita a fulgem das estrelas mais tímidas, do Seixal

O húmus, a vertigem de um gato sobre o telhado, miau

A ponte e o rio e o cacilheiro, ao fundo, cada vez mais fundo

E longe

A ilha de onde vim

 

A ilha, onde nasci

Tão de longe, eu o sinto

Ao teu longe

Ao teu eu te minto

Porque estou faminto

Porque quase não tenho voz

Isto é uma chatice

 

Isto.

 

Isto é um relógio envergonhado, são pénis perfilados, e alinhados

Na parada em aflição, derrete o sol o chão

E todos os pénis, e todas as espingardas, são tristes flores, no orgasmo de uma viagem

 

Passava o rio acima a calçada, descia a vagina ao pôr-do-sol, muito à tardinha, muito quase no mínimo múltiplo comum, pum

Sem-abrigo, sem

À tardinha eu não vou, por que raio devia eu de ir ao

Se eu não quero ir

Nem sair

Nem

Sem

De onde estou, sentado, sente a gente madrasta do abismo, o oiço

 

Sentado, aqui estou

Se gente também sente e o fosse, e também mente

Ser, à noitinha, à noitinha mais além do outro mar

Do outro destino, também

 

Livros, tílias & as sandálias do pescador

Dois carris que a nada o levam, nem lhe trazem

Do outro lado, do sentido lato

Na palavra, no atrelado, ou na piscina

A física quântica dos químicos

E das feras amestradas, o que temos então

Temos, pão?

Temos armas que disparam, pulgas?

Temos orelhas, e ouvidos e olhos?

E quantas são, as ovelhas do pastor?

 

Medo.

 

Se senta, aperta o cinto

E o sinto, na quase migalha, da quase palavra, a fogueira, no fogo e na doença

Se ninguém se demite, eu o demito

Está demitido, sr. Gato, miau

 

E chau.

Alegria, simpatia, simpatia?

 

Preciso de um camião para transportar um nome, um veículo especial e longo

Me levanto, e depois

Me sento

Aperto o cinto, e levito

 

E sou um pedaço de papel esquecido no vento.

 

Eu o lamento.

 

23/07
23:13

Aldeia

Na aldeia, a ceia do molecular

Sofrida a ceia, desconhecida no prazer

Na cantiga

Quer ele o seja

Ou não o queira ser

Uma lágrima do mar

Ou apenas gritar

E escrever

Na solidão de um olhar.

 

Na aldeia, a ceia perpendicular

Aos braços cansados de uma enxada

Na razão inversa, e adversa

Se o poema é o manjar dela

E do poema ela rasgar a madrugada,

 

Fingir no silêncio

Fingir na ausência esperada

Que até pode um dia, ser livro

Ser poesia

Ou nada o ser

Na Divina Comédia

Abstracta

Na razão inversa, e adversa

De uma mão.

 

23/07
21:13