23 julho 2026

Se senta, e se chateia na berlinda madrugada, quando uma abelha, uma abelha drogada

Se senta, e se chateia na berlinda madrugada, quando uma abelha, uma abelha drogada

No mel-veneno, no líquido intransigente, o grande milagre

Dos olhos do amanhecer

Sentado, ele se levanta e levita

Na insustentável leveza do ser, ou nos amores risíveis

Acordar a brincadeira

 

Da insustentável leveza do ser, o riso e o esquecimento

A madrugada quase gelo, quase linhagem de um nome

Cada erva escondida, cada árvore assassinada ou mordida

E cada homem, com fome

 

Quantas as ruas sem nome, quantas as ruas sem gente

Se senta, e se chateia na berlinda madrugada, e já não sente

A presença de sua amada, a equação mais abstracta, e mais parva

O ser, e o estar

Sentado à lareira, ouvindo a voz da escuridão

Saltita a fulgem das estrelas mais tímidas, do Seixal

O húmus, a vertigem de um gato sobre o telhado, miau

A ponte e o rio e o cacilheiro, ao fundo, cada vez mais fundo

E longe

A ilha de onde vim

 

A ilha, onde nasci

Tão de longe, eu o sinto

Ao teu longe

Ao teu eu te minto

Porque estou faminto

Porque quase não tenho voz

Isto é uma chatice

 

Isto.

 

Isto é um relógio envergonhado, são pénis perfilados, e alinhados

Na parada em aflição, derrete o sol o chão

E todos os pénis, e todas as espingardas, são tristes flores, no orgasmo de uma viagem

 

Passava o rio acima a calçada, descia a vagina ao pôr-do-sol, muito à tardinha, muito quase no mínimo múltiplo comum, pum

Sem-abrigo, sem

À tardinha eu não vou, por que raio devia eu de ir ao

Se eu não quero ir

Nem sair

Nem

Sem

De onde estou, sentado, sente a gente madrasta do abismo, o oiço

 

Sentado, aqui estou

Se gente também sente e o fosse, e também mente

Ser, à noitinha, à noitinha mais além do outro mar

Do outro destino, também

 

Livros, tílias & as sandálias do pescador

Dois carris que a nada o levam, nem lhe trazem

Do outro lado, do sentido lato

Na palavra, no atrelado, ou na piscina

A física quântica dos químicos

E das feras amestradas, o que temos então

Temos, pão?

Temos armas que disparam, pulgas?

Temos orelhas, e ouvidos e olhos?

E quantas são, as ovelhas do pastor?

 

Medo.

 

Se senta, aperta o cinto

E o sinto, na quase migalha, da quase palavra, a fogueira, no fogo e na doença

Se ninguém se demite, eu o demito

Está demitido, sr. Gato, miau

 

E chau.

Alegria, simpatia, simpatia?

 

Preciso de um camião para transportar um nome, um veículo especial e longo

Me levanto, e depois

Me sento

Aperto o cinto, e levito

 

E sou um pedaço de papel esquecido no vento.

 

Eu o lamento.

 

23/07
23:13