10 junho 2026

Está morto o verso, aliás

Está morto o verso, aliás

Quase tudo em mim, morreu

Morreu

Está morto o verso, tão morto

 

E tão o é no reverso céu

Da tempestade semeada pela mão, morto está

Este verso ainda sem nome, crucificado pelo lado esquerdo

Do quadrado, e o inverso

Que tão morto está este verso

 

Está morto o verso, e não converso

Nem com o verso

Nem com o universo

Eu morto, morto está este verso

 

10/06
21:15

Adeus

A viagem, ir

A levitação do sonho, então como eram as árvores daquele

Jardim

Que esqueci

Que te vi

 

Então, o meu nome

O número mecanográfico que me deram, tanto faz

Se

Vou caminhando sobre as pedras

Que te vi

 

A vingança de ti a estou a sentir, no corpo e não

Até que todas as árvores que o eram então

Livres, e amadas

Nas florestas do adeus

Adeus

 

10/06
21:08

Um não

Tão

Que são

E não

Senão

 

A mão

Tão

Não

São

O pão

 

A mão

O não

O pão

O coração

Crucificação

 

Não

 

Então?

 

10/06

Fotografia

Navego, e tenho

E sinto e trago na mão

O lenho

Do meu defeituoso coração

 

Se este barco soubesse, para onde caminhar

Se este barco soubesse sair da tempestade

Se este barco começasse a andar

No meio da cidade

 

Navego e tenho e não sei

A que mar pertenci

Porque o mar que eu sonhei

 

Não é mais o mar

É apenas uma fotografia que eu esqueci

De quando eu ainda sabia sonhar.

 

10/06
19:20

Esfinge

A sensação de estar morto, te olhando 

Vulgarmente sentindo o meu sofrendo, te olhando 

E eu pertencia à esfinge do mar 

E que hoje não tenho nem o mar 


Muito menos te olhando, mas a noite que voou desenhar na cabeça da chuva 

Pertence ao tic-tac do relógio que também morreu 

E que hoje é o dia disfarçado de céu 

E que hoje é quase gelo na minha cama 


10/06

17:26


Se o teu olhar escrevesse no meu olhar,

Amo-te

Se o teu olhar escrevesse no meu olhar

Desejo-te

Se o teu olhar escrevesse no meu olhar

Quero-te

 

Mas o teu olhar ainda não aprendeu, a escrever, no meu olhar…

Terra sagrada

Há dentro e no cento de mim que sentado me sinto, cansado

Uma pedra pincelada com as amoreiras do amanhecer, o ter

E o ser, há dentro e no centro de mim sentado me sinto, sentado

Junto ao rio e distante do rio

 

Há dentro de mim, um pequeno cordel, um fio

Descendo até à lavrada terra e semeada terra e escrita terra

Na enxada e na mão de uma outra pedra

Sentada, lançada, às feras da noite

 

Há dentro de mim e no cento de mim, há uma pedra

Sem nome, sem nome nem terra

Na terra disfarçada de terra

Na terra do nada

 

Que nunca pertenci e que não pertenço a esta terra, há

No centro de mim e no distante de mim

A terra e o olhar da terra

Na tão distante terra sagrada

 

10/06
12:43