26 maio 2026

Aqui estou eu

Aqui estou eu, sendo eu qualquer coisa, estranha na ausência da estética de um fio de nylon atado ao pescoço

Aqui estou eu, pertencendo e sendo, eu

Um pedaço de espuma no corpo da morte

Ou até estrela do céu

 

Aqui estou eu, sentado e aflito

Sentado e enforcado ao salitre e ao enxame de flores

Que aqui estou eu, a última porta da noite

Sentada também, no meu colo

 

Aqui estou eu, o milhafre do desejo

A palavra e o beijo

E a mão que chora

O rosto em despedida

 

Aqui estou eu, em partida

E sem regresso

Em cada verso, que aqui estou eu

Outro verso, outro eu.

Naquele tempo

Naquele tempo Jesus sentia-se triste

E andava descalço

Daquele tempo sobrou a solidão

E um ou outro verso

 

Sem nexo

Sem propósito

Naquele tempo Jesus sentava-se junto ao rio

Fuma e pensava

 

E sofria e amava

Naquele tempo Jesus sonhava

Que um dia quase certo e que quase nada

O derrubava

 

E Jesus o que ele chorava

Porque naquele tempo Jesus pelo mundo caminhava

Descalço e como eu sem quase nada

E como eu naquele tempo

 

26/05

Ausência

 Fazes-me falta nesta folha de papel onde te escrevo

E desenho os teus olhos na alvorada do mar

Fazes-me falta nesta rua sem saída

Deste destino em te amar


Fazes-me falta na estrada da vida

Fazes-me falta a cada noite de luar

Fazes-me falta nesta folha de papel de onde também oiço o mar

E que tão longe está o teu olhar


E que me fazes falta nesta folha de papel

Que inventa no meu sonhar

Que um dia os teus lábios de mel

Eu vou beijar

Foi só um desejo, o beijo

Foi só um desejo, o beijo

Foi um ter não o tendo

Foi só um desejo, o beijo

Foi um ser não o sendo

 

Com o que escreve a minha mão

Foi só um desejo, o beijo

Foi um não vestido de sim

Foi só uma fogueira

 

E hoje é plasma

Foi só um desejo, o beijo

A cada esquina, em cada rua e jardim

A nua, a lua, foi só um desejo o beijo

 

Do oceano em delírio

Foi só um beijo o desejo

Foi só um desejo o beijo

E hoje é não é nada e é martírio.

24 maio 2026

Noite

A noite, meu amor, é o pincelar da manhã

No silêncio dos teus olhos

É o te amar

Na claridade do mar.


A noite, meu amor, é a 


 da chuva

Quando dorme no orvalho Da última luz

O mar, meu amor, em te desejar

Depois de um dia na escuridão da última noite.


Francisco

24/05

10:21

Que o livro seja o silêncio

Também é quase possível que o livro seja o silêncio

Da água que arde, na alvorada que também é silêncio

A noite que voou sobre a folha de papel e mel

Até alcançar a tarde no toque de uma fotografia


Também é quase possível que o livro seja o silêncio

Que cada sombra é uma espada, na palavra escrita, na palavra falada

Também é quase possível que a fogueira da chuva

Morra na espuma de um olhar


De um olhar quase bala

Disparada por uma espingarda, embriagada

Também é quase possível que o livro seja o silêncio

Que o livro seja o silêncio


24/05

Francisco