Aos poucos fui perdendo, e
Nem uma mão para acariciar o meu rosto neste momento
Apenas.
É tão fria a noite do meu
sentir
Sentir que ninguém me
sente
Sentir que sou ausente
Neste viver de fingir
Neste viver que me mente
Sentir me sentindo gente
Que sofre e que sente
O sentir ausente
31/05
02:00
havia sangue nos dentes
da roda
dentada, que saboreia a
espada
que sonhava, e que agora
não sonha nada
havia sangue nos dentes
da roda
que roda, à roda da roda
o sol, não roda
a lua roda e o sol também
roda
na cabeça da lâmpada
havia sangue nos dentes
da roda
à deriva e à roda do veio
de transmissão
havia sempre uma roda
dentada
com sangue nos dentes
nos dentes de uma roda
dentada
30/05
23:04
Fui criança, e de andança
em dança, quase sempre que danço, quase sempre que balança
Fui criança costureiro,
fazia vestidos por medida para um parvo boneco, o chapelhudo, abelhudo e às
vezes como eu,
Trombudo.
Talvez este tenha sido o
meu único amigo, e fui também eu um erro logo à nascença, mais tarde, muito
mais tarde
Em métodos numéricos,
estudei a teoria do erro, e percebi
Não, ainda não entendi.
Percebi que depois de
resolver complexas equações, algumas delas em Matlab, não
Não percebi nada.
Que fui, e que sou um
erro. Pergunto-me, e vos pergunto:
Porque nascemos nós? Qual
o objectivo de nascer, crescer e morrer, de amar de odiar e de foder e de ser
fodido, e de ser odiado
Pergunto-vos,
Qual o propósito de tudo
isto?
Será que alguém se
diverte com a desgraça alheia? Isto é
Tudo isto é um circo,
palhaços, que fui, e que sou
Podia, e não o quis
Ser esposo de uma
trapezista, já na altura eu gostava de ser artista, e mesmo assim, o erro, o
erro é inferior a 0,0001
Fui criança, fui
tragédia, e foi trágico
Suicidei-me um dia da
vida, e desde então deixei de ser, sabendo que nunca o fui ou serei
Pássaro
Voei. Gostei, porra,
gostei tanto de voar.
Gostava de voltar a voar,
voar
Sobre o azul silêncio de
um olhar, depois
Dançávamos sobre a geada,
crescíamos como dois pedaços de giz na alvorada de um beijo
E o corpo deixou de me
pertencer, nunca mais tive corpo, nunca mais tive a companhia do chapelhudo, e
o circo é uma festa
E íamos,
E nos beijávamos já
depois da noite não ser mais a noite, sangrenta, suja e imunda, nas mãos de uma
sanzala
Fui criança, e de andança
em dança, quase sempre que danço, quase sempre que balança
Fui criança costureiro, criança.
30/05
22:46
Não importa se o rio tem o
teu nome
Não importa se a porta
não é porta de abrir
Não importa se há pão ou
se há uma janela para fugir
Não importa quem sou não
importa o que fui ou o que serei
Não importa se está sol ou
geada ou a loucura
Na mão de uma enxada
Não importa se há sorrisos
no meu rosto
Não importa se também
lágrimas as haja
Não importa se vai haver
mais noite
Ou se daqui para a frente
a noite ser um inferno
Não importa o que dizem
de ti as estrelas
Não importa o cansaço e o
abraço
Não importa a vida não
importa o silêncio
Ou o caos da tristeza
Não importa se há flores
no teu jardim
Não importa se as
crianças brincam ou se não brincam
Ou se morrem
Já nada mais me importa
(um dia perguntaram ao
Cesariny porque tinha deixado de escrever, ele
- Não tenho mais nada
sobre o que escrever, já escrevi sobre tudo o que tinha para escrever. Não é uma
ameaça da minha parte, mas neste momento sinto o mesmo; sinto-me um inútel.)
29/05
18:20
Não será o destino
vencido, ele me vencer
Não será a lápide de uma
mão
Ou o beijo da noite
Não será a janela do
silêncio
Não será o mar
Não será a chuva
Não será o corpo
Não será a pluma
Não será nunca
Este viver
Não será o destino
vencido, ele me vencer
Não será a morte o medo
de viver
Não será a lua a luz da
noite
Não será a noite
Os lábios da madrugada
Não será a charrua
A corrente e o semífero do
abstracto dia, na terra lavrada
Não será a espada, no
peito cravada
Não será o sol, a alegria
sentida e nua
Da árvore que não será a tarde
Não será o rio
Não será poesia
Não
Não será
29/05
03:53