30 maio 2026

Fui criança

Fui criança, e de andança em dança, quase sempre que danço, quase sempre que balança

Fui criança costureiro, fazia vestidos por medida para um parvo boneco, o chapelhudo, abelhudo e às vezes como eu,

Trombudo.

Talvez este tenha sido o meu único amigo, e fui também eu um erro logo à nascença, mais tarde, muito mais tarde

Em métodos numéricos, estudei a teoria do erro, e percebi

Não, ainda não entendi.

Percebi que depois de resolver complexas equações, algumas delas em Matlab, não

Não percebi nada.

Que fui, e que sou um erro. Pergunto-me, e vos pergunto:

Porque nascemos nós? Qual o objectivo de nascer, crescer e morrer, de amar de odiar e de foder e de ser fodido, e de ser odiado

Pergunto-vos,

Qual o propósito de tudo isto?

Será que alguém se diverte com a desgraça alheia? Isto é

Tudo isto é um circo, palhaços, que fui, e que sou

Podia, e não o quis

Ser esposo de uma trapezista, já na altura eu gostava de ser artista, e mesmo assim, o erro, o erro é inferior a 0,0001

 

Fui criança, fui tragédia, e foi trágico

Suicidei-me um dia da vida, e desde então deixei de ser, sabendo que nunca o fui ou serei

Pássaro

Voei. Gostei, porra, gostei tanto de voar.

 

Gostava de voltar a voar, voar

Sobre o azul silêncio de um olhar, depois

Dançávamos sobre a geada, crescíamos como dois pedaços de giz na alvorada de um beijo

E o corpo deixou de me pertencer, nunca mais tive corpo, nunca mais tive a companhia do chapelhudo, e o circo é uma festa

E íamos,

E nos beijávamos já depois da noite não ser mais a noite, sangrenta, suja e imunda, nas mãos de uma sanzala

 

Fui criança, e de andança em dança, quase sempre que danço, quase sempre que balança

Fui criança costureiro, criança.

 

30/05
22:46