18 fevereiro 2026

 


e dorme nos teus seios

coloco a minha mão nos teus seios, e acaricio-os

como se fossem uma ribeira louca, em fúria para um rio, em paz, quando chega ao mar

e só a minha mão sabe, onde se escondem os teus seios, quando é noite

e eu,

e eu pertenço aos teus sonhos, e é luar nos teus seios

 

e eu sou os teus seios, e a minha mão

é uma caneta de tinta permanente, em permanente descanso

sobre um papel quadriculado qualquer, no silêncio do vento

ou até, no ventre teu,

 

coloco a minha mão nos teus seios, e sinto o perfume da noite

quando um jardim quase branco, quando um pedaço de desejo, azul-total,

e quatro ripas de sombra se cruzam, e uma janela de luz

poisa, e dorme,

 

e dorme nos teus seios.

 

18/02/2026, 00:23

16 fevereiro 2026

 

o meu corpo em dor

o odor do meu corpo, não me pertence mais

é agora odor no teu corpo, o teu corpo no meu corpo

o meu odor, no teu odor

que este meu corpo, é odor

 

que deixei de ter corpo, que deixei

de pertencer a este odor, a este destino

se cada relógio assassinado por uma flor, é

um outro odor, do meu corpo em dor

 

16/02/2026, 14:17

noite dentro de mim

conheci o sol, ainda era noite dentro de mim

parece que é sempre noite, dentro de mim

como se um rio de insónia se avassalasse e me aprisionasse

como se eu estivesse vestido de musgo amanhecer

 

depois o sol começou a vestir-se de madrugada

e eu acreditava, e eu sonhava

depois o sol aos poucos, muito devagarinho

despediu-se de mim, e hoje é sempre noite

 

noite dentro de mim, tão escura como a água do charco

que depois da chuva, se ergue, e se destina

a esconder a minha mão

para que nunca mais seja noite, noite dentro de mim

 

conheci o sol, o sol dentro de mim

que depois de me roubar a noite, me roubou também a primavera

que depois voltou a ser sempre noite

noite, só a noite, a noite dentro de mim.

 

16/02/2026, 09:32

15 fevereiro 2026


 

A ribeira dos teus seios

Na ribeira dos teus seios o saciar do meu desejo

À sede dos teus beijos, na escuridão da tua boca

Também é o silêncio da chuva

Também é a alegria tão pouca

Na ribeira dos teus seios que ainda ontem éramos dois sonhos

Que a fogueira também morreu e que gemia sentidos pêsames

A água do clitóris mar floresce e o beijar

É quase gelo seco que ainda não terminou de crescer

E os teus seios são poemas para disfarçar o fogo, a luz

Arte de uma mágoa, morrer com uma lágrima

Cravada no toque de uma fotografia

Nos sais de prata da ausência


15/02/2026