12 agosto 2026

Nunca, nunca se deve, meter o dedo, a medo

Nunca, meter o dedo

Onde ninguém o mandou

Meter,

 

Nunca,

Nunca acreditar, porque

Nunca se meter o dedo, o deve,

 

Nunca meter o dedo, no dedo

Os cubos de gelo, adocicam o dedo

E ele, começa a sorrir

E a ouvir

 

A voz do medo,

 

Nunca, nunca se deve, meter o dedo, a medo.

 

12/08
21:50

Eu calculei, que A seara deve ser domada, pelo vento Eu calculei, que depois de ir, eu vinha

Eu calculei, que

A seara deve ser domada, pelo vento

Eu calculei, que depois de ir, eu vinha

À mangueira, de uma laranjeira

E ouvir a voz da lareira, em si

Escapei ao enxame, escondi-me, na colmeia

 

Eu calculei, que

A alvorada, às vezes, é envergonhada

Das páginas de um livro

Nas letras, de uma lápide, quase nada

Eu calculei, que

A chuva em mim, se sentava

Eu calculei

 

Eu calculei, que

A seara deve ser domada, pelo vento

Eu calculei, que depois de ir, eu vinha

 

12/08
20:33

À lareira, imagino-a

À lareira, imagino-a nua, a arder nos meus braços

Imagino-a à lareira, deitada

Em mim, nua

Imagino a rua, imagino

O toque do sino

Imagino-me quando em menino

À lareira, imagino-a, nua, de seios ao vento

Sem tempo, este vento

Que sabe a sal, que é o veneno

Da conversa, são

À lareira, em chamas, a arder

No silêncio, na confusão

No mais profundo

Do silêncio,

A tua mão, à lareira.

 

12/08
03:33

Podia ser

Podia ser, a canção na sílaba e na mão

No sorriso da noite, sentir

O frio vento, sentir a sombra do sofrimento

E é tão lindo, o pôr-do-sol. Quando o sol

É o nome e a identidade, e o pensamento

 

Podia ser, a chuva cinzenta, da alvorada

Podia ser a trovoada, ou a terra molhada

Ou só, a só mão

Triste,

E cansada

 

Podia ser, tanta coisa ser

Podia ser a janela de onde se vê o mar

De vencer

E de sonhar,

Podia ser, podia ser amar

 

Ou até, voar

Podia ser o poema, na deitada cama

Podia ser o nu, corpo, em chama, podia ser

Poesia, o sentir

Cada palavra, no corpo escrever; podia ser.

 

12/08
00:04

11 agosto 2026

A última bilha de gás

Hoje fodi um dedo com uma bilha de gás, e

Como ando a ler e a reler Herberto, o Helder

Lembrei-me do poema a última bilha de gás,

a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi, já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move, não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

 

E isto, o é. Foda-se, que dói.

 

11/08
21:25