09 agosto 2026

Há uma viagem, silêncio Nos teus seios,

Há uma viagem, silêncio

Nos teus seios,

E eu, em silêncio

 

Escuto a voz dos teus seios.

 

Há um jardim, em jardim

O silêncio dos teus seios

Tão longe e tão pertos de mim,

Há uma viagem, nos teus seios

Silêncio, a voz que me escuta

Na sombra de um abraço,

 

Há um rio, nos teus seios

Silêncio, na voz

Dos teus seios,

Em seios no silêncio,

Dos seios do mar, dos teus seios.

 

09/08
03:31

08 agosto 2026

Na fúria, de um negro buraco

Na fúria de um negro buraco, na campânula se o sentir

no dizer, no sorrir

da fúria ausente, na semente, às palavras

a erva, devorada, amada

lançada na maré nocturna da solidão,

 

Construir no ouvido a escuta, no milagre

a fotografia em despedida, dita

escrita

na terra quase sabão macaco, no outro corpo

sem corpo, sem

olfacto,

 

Na fúria de um negro, buraco

o meu corpo na guerra e na insónia entre a solidão e a canção do rio, cansado

no dito e no ditado, na escola, no recreio

porque hoje, hoje é sábado

na fúria, de um negro buraco.

 

08/08
22:07

Era a geada

Era a geada,

na fria mão de um menino.

Que às vezes, e muitas, vezes

de tão cansada, o estar

que não era mais a geada,

na fria mão do menino,

passou a ser, a ser a enxada

do nome, e no seu destino.

 

Era a geada,

em cada granito, em cada grito

de uma escada, e manhã cedo

o menino brincava, e se divertia

a olhar e a tocar, na geada

e a escorregar nos degraus de uma escada.

 

08/08
18:50

Um dia, disse ao meu pai

Um dia, disse ao meu pai

Um dia, pai

Mas não sendo eu pai, um dia lhe disse

Que um dia, eu seria

A seara envenenada. Tão só

Como o frio de uma espada.

 

Que um dia, eu lhe disse, que um dia, eu

Sim, meu filho

Tu.

 

Que um dia, eu lhe disse

Quando um dia, eu teria

Que nem a terra me comia, que um dia

O mar tinha flores, e

E meninos a brincar, na espuma

Quando às vezes se escondiam nas sós

E muitas sós, um dia, as

Conchas, abandonadas, a fria areia e branca, do outro

Lado,

Do mar.

 

No outro silêncio da chuva, que um dia, eu lhe disse

Lhe disse que um dia, eu o seria

Clara, claro que ele não acreditava, que também eu, tal como ele

Um dia, eu tal como o seria, mas às vezes, não o sendo

Lhe dizia, pai

Olha que um dia!

Estás, maluco, pá.

 

Que um dia, eu como tu

O seria, sabes, pai

Um dia, lembras-te, daquele, dia

Em que os teus olhos pareciam a chuva, molecular sobre os candeeiros da alma, e eu sabia, e tu sabes, que eu um dia

Nada,

Nada o seria.

 

08/08
18:35

Talvez o sejas, tu, a mulher

Talvez o sejas, tu, a mulher 

Do meu viver, se existe viver 

Na mulher que o livro faz arder 

Talvez sejas, o sejas, tu

A primavera do meu olhar, talvez o sejas, a mulher 

Inverno, do meu inferno, de amar 

 

E talvez nada o sejas, na luz

Da chuva que me abraça, e que não me deixa sonhar.

 

08/08

16:03