08 agosto 2026

Um dia, disse ao meu pai

Um dia, disse ao meu pai

Um dia, pai

Mas não sendo eu pai, um dia lhe disse

Que um dia, eu seria

A seara envenenada. Tão só

Como o frio de uma espada.

 

Que um dia, eu lhe disse, que um dia, eu

Sim, meu filho

Tu.

 

Que um dia, eu lhe disse

Quando um dia, eu teria

Que nem a terra me comia, que um dia

O mar tinha flores, e

E meninos a brincar, na espuma

Quando às vezes se escondiam nas sós

E muitas sós, um dia, as

Conchas, abandonadas, a fria areia e branca, do outro

Lado,

Do mar.

 

No outro silêncio da chuva, que um dia, eu lhe disse

Lhe disse que um dia, eu o seria

Clara, claro que ele não acreditava, que também eu, tal como ele

Um dia, eu tal como o seria, mas às vezes, não o sendo

Lhe dizia, pai

Olha que um dia!

Estás, maluco, pá.

 

Que um dia, eu como tu

O seria, sabes, pai

Um dia, lembras-te, daquele, dia

Em que os teus olhos pareciam a chuva, molecular sobre os candeeiros da alma, e eu sabia, e tu sabes, que eu um dia

Nada,

Nada o seria.

 

08/08
18:35