20 setembro 2026
19 setembro 2026
O poeta
Ausente da manhã, a
vaquinha
Come toda a erva fresca
do prado, da chaminé das árvores
Ouvem-se os pequenos
silêncios melódicos de uma espada cravada na sombra, o sangue, disfarçado de
medula,
Vagueia pelas encostas
ingrimes, da sonolência, e da ausência,
E a vaquinha, está feliz,
está contente,
Porque, finalmente,
A vaquinha, já é gente
E que sente,
A noite em calafrios,
sorrindo, inventando calores e muitos mares e rios.
E que gente, esta gente
Que faz sofrer tanta
gente, e que mente.
E o pastor, também ele,
indiferente
Se a vaquinha, da manhã,
está ausente, e se come
Toda a ervinha fresca,
Do prado, quer o poeta lá
saber, da vaquinha, no seu ser
E do prado, em seu saber.
Os cigarros são
aventuras, são misturas, são pedras
E são pássaros, janelas
quebradas, camas desfeitas, moribundas, quando a noite se masturba, na frente
de um livro de poemas.
O pastor inventa ruas nuas
e outras luas na cabeça, desenha moedas, na algibeira, come biscoitos, enquanto
lê, saboreia chocolate, enquanto grita para a vaquinha,
- sai daí amarelaaaaaaaaaaaaaa.
E de lá saiu uma cobra
pincelada de néon alecrim, cheirava tão bem,
Na alegria de dois olhinhos
de bolota;
Ausente da manhã, comeu
toda a ervinha fresca do prado.
19/09
22:11
Oiço o rio no seu viver, aqui E ali, um peixe emerge das profundezas, salta, E me olha, com desdém.
Passadiços de S. Mamede,
cais do tua, 19/09
Oiço o rio no seu viver, aqui
E ali, um peixe emerge
das profundezas, salta,
E me olha, com desdém.
O rio é um amontoado de
madeira, restos de árvores, matéria
Morta.
Se eu não tivesse nascido
em África, diria
Tantos crocodilos e tão
mansinhos que eles estão…
Mas, mas infelizmente já
ninguém me engana, fazendo-me acreditar
Que todos aqueles
pedacinhos de madeira, ora poderão lá ser,
Crocodilos. E hoje já ninguém
faz de mim, burro, ou o tolo, como o fizeram, em outros tempos.
Mesmo tendo nascido em
África, nunca vi
Um crocodilo, ao vivo, no
rio.
O único crocodilo que vi,
foi no externato da Granja, e era embalsamado, e ocupava toda a parede da sala,
do lado esquerdo, ao lado, direito.
Às vezes colocávamos-lhe
um cigarro acesso, e ele
Vertia lágrimas de fumo,
pelos olhos e pela boca.
Começo a ver a tarde no
limiar da penumbra, um casal de adolescentes, pesca, e às vezes
Beijam-se, mais ao longe
dois homens, também pescam, e não tenho a certeza se se beijam, ou
Que os peixes são mais
esperto do que eu, e zarpam.
A Cristina lá anda, eu
fumo e leio e escrevo, e ela
Apanha bolota, pedrinhas
e pedacinhos de madeira, tudo para os meninos dela, lá da escola.
A paisagem começa a desaparecer,
e aos
Poucos tenho a sensação de
que tudo o que vejo, é apenas uma fotografia, ou
Alucinação. E daqui a
nada, poisará a noite neste banco, sempre em silêncio, sempre a olhar o rio.
Talvez amanhã eu regresse
a ele, talvez amanhã a Cristina, novamente em busca das suas coisinhas, sempre,
Sempre para os meninos.
Vou continuar a ler o Herberto,
até que a noite se absorva em mim, e logo mais,
Me segrede alguma, coisa.
19/09
20:46
18 setembro 2026
O fogo
Fogo que deixei na alvorada, na esquina de uma fotografia
A paixão é quase gelo, mas já nada
Pertence a me pertencer, que de
Nada eu preciso, nem da vida,
Nem do viver.
Já amordaçada estava a luz do mar, no toque do orvalho
Também não sei como foi gente, tanta gente
Alvoroço, o frio e o beijar no calor
De um olhar, no silêncio de um livro.
E este fogo por mim semeado, por
Mim desejado, é o vértice anónimo
De uma mágoa de brincar, anoitece em mim
Como se uma flor acabasse de morrer.
17/09
13:47


