Passadiços de S. Mamede,
cais do tua, 19/09
Oiço o rio no seu viver, aqui
E ali, um peixe emerge
das profundezas, salta,
E me olha, com desdém.
O rio é um amontoado de
madeira, restos de árvores, matéria
Morta.
Se eu não tivesse nascido
em África, diria
Tantos crocodilos e tão
mansinhos que eles estão…
Mas, mas infelizmente já
ninguém me engana, fazendo-me acreditar
Que todos aqueles
pedacinhos de madeira, ora poderão lá ser,
Crocodilos. E hoje já ninguém
faz de mim, burro, ou o tolo, como o fizeram, em outros tempos.
Mesmo tendo nascido em
África, nunca vi
Um crocodilo, ao vivo, no
rio.
O único crocodilo que vi,
foi no externato da Granja, e era embalsamado, e ocupava toda a parede da sala,
do lado esquerdo, ao lado, direito.
Às vezes colocávamos-lhe
um cigarro acesso, e ele
Vertia lágrimas de fumo,
pelos olhos e pela boca.
Começo a ver a tarde no
limiar da penumbra, um casal de adolescentes, pesca, e às vezes
Beijam-se, mais ao longe
dois homens, também pescam, e não tenho a certeza se se beijam, ou
Que os peixes são mais
esperto do que eu, e zarpam.
A Cristina lá anda, eu
fumo e leio e escrevo, e ela
Apanha bolota, pedrinhas
e pedacinhos de madeira, tudo para os meninos dela, lá da escola.
A paisagem começa a desaparecer,
e aos
Poucos tenho a sensação de
que tudo o que vejo, é apenas uma fotografia, ou
Alucinação. E daqui a
nada, poisará a noite neste banco, sempre em silêncio, sempre a olhar o rio.
Talvez amanhã eu regresse
a ele, talvez amanhã a Cristina, novamente em busca das suas coisinhas, sempre,
Sempre para os meninos.
Vou continuar a ler o Herberto,
até que a noite se absorva em mim, e logo mais,
Me segrede alguma, coisa.
19/09
20:46

