19 setembro 2026

Oiço o rio no seu viver, aqui E ali, um peixe emerge das profundezas, salta, E me olha, com desdém.


Passadiços de S. Mamede, cais do tua, 19/09

Oiço o rio no seu viver, aqui

E ali, um peixe emerge das profundezas, salta,

E me olha, com desdém.

O rio é um amontoado de madeira, restos de árvores, matéria

Morta.

Se eu não tivesse nascido em África, diria

Tantos crocodilos e tão mansinhos que eles estão…

 

Mas, mas infelizmente já ninguém me engana, fazendo-me acreditar

Que todos aqueles pedacinhos de madeira, ora poderão lá ser,

Crocodilos. E hoje já ninguém faz de mim, burro, ou o tolo, como o fizeram, em outros tempos.

 

Mesmo tendo nascido em África, nunca vi

Um crocodilo, ao vivo, no rio.

O único crocodilo que vi, foi no externato da Granja, e era embalsamado, e ocupava toda a parede da sala, do lado esquerdo, ao lado, direito.

Às vezes colocávamos-lhe um cigarro acesso, e ele

Vertia lágrimas de fumo, pelos olhos e pela boca.

 

Começo a ver a tarde no limiar da penumbra, um casal de adolescentes, pesca, e às vezes

Beijam-se, mais ao longe dois homens, também pescam, e não tenho a certeza se se beijam, ou

Que os peixes são mais esperto do que eu, e zarpam.

 

A Cristina lá anda, eu fumo e leio e escrevo, e ela

Apanha bolota, pedrinhas e pedacinhos de madeira, tudo para os meninos dela, lá da escola.

A paisagem começa a desaparecer, e aos

Poucos tenho a sensação de que tudo o que vejo, é apenas uma fotografia, ou

Alucinação. E daqui a nada, poisará a noite neste banco, sempre em silêncio, sempre a olhar o rio.

 

Talvez amanhã eu regresse a ele, talvez amanhã a Cristina, novamente em busca das suas coisinhas, sempre,

Sempre para os meninos.

 

Vou continuar a ler o Herberto, até que a noite se absorva em mim, e logo mais,

 

Me segrede alguma, coisa.

 

19/09
20:46