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29 outubro 2024

Hora da poesia

Às vezes não sei quem sou. Às vezes,

Tenho medo, muito medo daquilo sou.

Há quem me chame de tolo, que penso demais,

Há quem diga que eu não jeitinho para nada,

A não ser,

Quando era criança olhar as estrelas no céu de Luanda.

E sonhava…

Às vezes pareço não parecendo mas sou quase esse,

Que aparece no espelho da noite, e que finge não existir.

Às vezes acordo com a sensação que regresso de uma batalha longínqua, lá longe

Onde brinca um rio, onde está o mar

Da minha infância.

Às vezes, dizem, que sou um Zé-ninguém, talvez

O pareça não o sendo, e talvez o seja não o parecendo.

 

E depois,

 

Depois,

 

Depois sou convidado para estar presente num dos maiores programas da nossa rádio sobre poesia; hora da poesia com a doutora Conceição Lima, na rádio Vizela. Para falar de poesia,

 

Para falar de mim, eu

Aquele a quem chamam de tolo, de desajeitado,

De coitado.

 

De coitadinho.

 

Tirando o facto de vir a estar na Hora da Poesia, onde na semana passada esteve presente o nosso cardeal e poeta Tolentino Mendonça,

 

A minha vida continua a ser uma merda,

Virada do avesso.

 

Tenho dito.