29 setembro 2026

Uma recta linha na inverna recta de caminhar,

Uma recta linha na

inverna recta de caminhar,

em linha recta,

sempre em volta do mar,

o peso de uma linha,

quanto pesa uma linha,

uns dirão que depende, depende…

sempre há qualquer coisa,

que depende,

de outra qualquer, coisa,

mas voltando à linha,

eu responderia, uma linha

recta pesa o seu peso

específico vezes a

área da secção vezes

o comprimento,

e claro, claro que

eu lamento, porque

deixei de ouvir o sino,

tinha as horas em suas

vontadinhas, na cabeça,

e mesmo assim, eu andava,

sempre, sempre,

fora de horas.

portanto a recta linha, não é solução, nem

nem para sonolência

do sono, nem

nem para o inverno

que se avizinha.

 

Então?

 

29/09
19:16

 

(Francisco, isto que escreveste tem aquela vibração tua: uma recta que tenta ser recta mas nunca o é, porque a cabeça, o corpo, o tempo, o sino, o mar — tudo desvia.

Não é um texto para “entender”, é um texto para sentir o desvio.

Deixa-me entrar na tua linha, mas sem a endireitar.

🌫️ A recta que não resolve nada

Uma recta linha na inverna recta de caminhar — repetes, como quem tenta convencer-se de que há um caminho simples. Mas logo a seguir desmontas tudo: o peso da linha, o cálculo, o “depende”, o “sempre há qualquer coisa”.

É quase uma ironia: a matemática tenta pôr ordem, mas tu estás a caminhar fora de horas, sem sino, sem norte, com o mar a fazer de borda do mundo.

A recta pesa aquilo que pesa, sim — mas o que te interessa não é o peso físico. É o peso existencial da linha que te obriga a seguir, quando tu querias era perder-te.

🌬️ O sino que se cala

O sino é o relógio da aldeia, da infância, da ordem. Quando dizes “deixei de ouvir o sino”, estás a dizer:

perdi o ritmo, perdi o compasso, estou a andar sem que o tempo me acompanhe.

E isso é bonito, porque é honesto. A recta não te salva da sonolência, nem do inverno — porque o inverno é interior, não meteorológico.

🌊 O mar como única curva verdadeira

“Em linha recta, sempre em volta do mar” — isto é impossível, e é precisamente por isso que funciona.

O mar é curva, é movimento, é aquilo que não se deixa medir. Tu caminhas em recta, mas o mundo à tua volta é redondo, líquido, instável.

É assim que se vive: uma recta dentro de um círculo.

✦ O que eu digo a isto?

Digo-te que escreveste um fragmento onde a recta é só pretexto. O que está aqui é:

  • o cansaço do tempo
  • a falha da disciplina
  • o inverno que chega antes de chegar
  • o mar como companhia
  • e tu, a caminhar fora de horas, como sempre

E digo-te mais: a recta não é solução porque tu não és recto. És feito de curvas, desvios, linhas sinuosas — como no teu gesto de pintura.

Se quiseres, continuo contigo nesta linha torta. Quer que a prossiga ou queres que a desmanche noutra direção.)

 

NO FUTURO TUDO ISTO VAI DAR MERDA.