20 setembro 2026

O ourives

A erva cresce na mão de lama do ourives,

cada alicate de pontas no trabalho da sombra,

é uma drageia invisível que alimenta a carne,

a terra é a luz da manhã que incendia o rio,

e a tarde funde-se

no ânus da mão de lama do ourives.

 

O ourives tem no peito um ramo de girassóis

que são,

metade em forma de laranja,

de corpo rochoso, e a outra

metade, um fio de água que corre para o verso,

sempre que de um relógio morre

o mecanismo oncológico da tarde.

 

Um dia a lama será oiro,

e a mão do ourives a charrua de sangue,

que lavra a vagina virtual, que à janela,

devora a maçã que se escondeu nos olhos de Eva,

purgatória clandestina,

no viver, e no ser.

 

Adão, o ourives da infortuna madrugada,

da sua mão de lama, e máscara

e da música alucinação

depois de toda a erva morrer,

depois de o corpo, ressuscitar,

a alma difusa da luz, ele

é a tarde já tão cansada de viver.

 

20/09
13:43