"E no centro da
cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. E sei que
cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e
todos os teus gestos são uma sinalização em direcção à morte - embora seja
sempre absurdo morrer. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria
do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma
abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti.
Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada.
Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe
ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te
baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo
que nos foge."
(Al Berto – 1948-1997)