31 maio 2026

Há quem parta e nunca mais regresse

Há quem parta e nunca mais regresse

Há quem regresse e deixe de ser pátria

Há quem durma na espuma

Há quem seja a melodia

 

O dia

Mas também há quem seja merda e trovoada

Há quem seja o que já o foi primavera

Há quem seja janela e lâmpada e vela

 

Há quem seja socalco e vinha

Há quem seja rio e moinho

Há quem seja o sangue

E o miolo do pão na mesa do vizinho

 

Há quem parta e reparta em forma de círculo

Há quem adivinhe o silêncio

Há quem saiba ler um olhar ou uma maré

Há quem seja árvore e barco e ralé

 

Há quem tenha fé e eu apenas gosto de café

Dispenso a fé

Há quem seja herege e beijo e Bispo de Viseu

Há quem seja camafeu

 

Há qume seja e há quem parta e não mais regresse

Há quem seja Zenão e há quem seja vómito sobre a mesa

Há quem seja a guerra e a fúria de um gato

Sentado na sanita do patrão

 

Há quem seja falso e aldrabão e há quem seja sexo

De mão em mão

Há quem não regresse e que parta e que esquece

Que há uma porta nua e em esperma claridade

 

Cada palavra escrita na divina cristandade e virgindade da gasolina

Há quem seja gasóleo e eléctrico

Há quem não necessite da formiga

 

E o açúcar a dançar de esmeralda em esmeralda

Há quem seja toalha e estojo de barba

Há quem seja comboio e ao mesmo tempo

Há quem seja velório e relógio de tempo

 

Há quem parta e não o saiba

Há quem destina e semeia a ventoinha de uma aldeia

Há que o seja quase que o foi como eu o fui

Há quem seja espingarda

 

Há quem seja farda

Há quem seja merda e mesmo assim não o saiba

Há quem seja sabonete nos braços de uma vagina

Há quem seja menina e flor ao amanhecer

 

Há quem seja a chuva

Há quem parta e há quem não regresse

Há quem seja novamente a uva

Há quem seja a areia dentro da cabeça

 

Há quem parta e seja

Há quem não regresse e que nunca tenha partido

Há quem saiba que o soubesse pensando que o sabia

Há quem seja o mijo e a adrenalina do dia e da urina

 

Há quem seja cigarro no cu de judas

Há quem seja dinheiro na vírgula de um engate

Há quem fosse urinol

E hoje dizem que é o sol

 

Houve quem fosse o poeta dos urinóis

Há quem seja hoje croquete e meia-dúzia de rissóis

Há quem seja carril deitado na estrada

Há quem seja a estrada

 

Há quem seja a corda e a bala

E a espada

Há quem seja a sebenta e o livro

Há quem seja a fogueira e a cegueira de uma alma

 

Há quem seja almofada

Há quem seja a cama

A cama cansada

Há quem seja a trigonometria de um grito

 

Há quem esteja aflito e hirto e fodido

 

Há quem seja o rio em fúria na curva da vida

Há quem seja avião

E há quem tenha SIDA

Há quem diga que eu sou tolo e louco

 

Há quem seja papel higiénico

Há quem seja terra e mar e vento

Há quem seja rolamento

Há quem seja veio e também o seja roda dentada

 

Há quem seja corrente de distribuição

Há quem seja moinho de vento

E cavalo e depois pão

E sonho que o seja

 

Há quem seja erva

Há quem seja ovelha e lesma e peixe amestrado

Há quem seja o pénis

Nos lábios de um drogado

 

Há quem seja pássaro e no entanto há quem seja minuta de contracto

Há quem seja Viriato

E há quem seja assobio e borato

E garganta no esperma da noite

 

Há quem seja oceano e fulano

E amigo do amigo do cigano

E há quem seja engano

Nos retalhos de um pano.

 

31/05
19:38