Há quem parta e nunca
mais regresse
Há quem regresse e deixe
de ser pátria
Há quem durma na espuma
Há quem seja a melodia
O dia
Mas também há quem seja
merda e trovoada
Há quem seja o que já o
foi primavera
Há quem seja janela e
lâmpada e vela
Há quem seja socalco e
vinha
Há quem seja rio e moinho
Há quem seja o sangue
E o miolo do pão na mesa
do vizinho
Há quem parta e reparta
em forma de círculo
Há quem adivinhe o
silêncio
Há quem saiba ler um
olhar ou uma maré
Há quem seja árvore e
barco e ralé
Há quem tenha fé e eu
apenas gosto de café
Dispenso a fé
Há quem seja herege e
beijo e Bispo de Viseu
Há quem seja camafeu
Há qume seja e há quem
parta e não mais regresse
Há quem seja Zenão e há
quem seja vómito sobre a mesa
Há quem seja a guerra e a
fúria de um gato
Sentado na sanita do
patrão
Há quem seja falso e
aldrabão e há quem seja sexo
De mão em mão
Há quem não regresse e
que parta e que esquece
Que há uma porta nua e em
esperma claridade
Cada palavra escrita na
divina cristandade e virgindade da gasolina
Há quem seja gasóleo e
eléctrico
Há quem não necessite da
formiga
E o açúcar a dançar de
esmeralda em esmeralda
Há quem seja toalha e
estojo de barba
Há quem seja comboio e ao
mesmo tempo
Há quem seja velório e
relógio de tempo
Há quem parta e não o
saiba
Há quem destina e semeia
a ventoinha de uma aldeia
Há que o seja quase que o
foi como eu o fui
Há quem seja espingarda
Há quem seja farda
Há quem seja merda e
mesmo assim não o saiba
Há quem seja sabonete nos
braços de uma vagina
Há quem seja menina e
flor ao amanhecer
Há quem seja a chuva
Há quem parta e há quem
não regresse
Há quem seja novamente a
uva
Há quem seja a areia
dentro da cabeça
Há quem parta e seja
Há quem não regresse e
que nunca tenha partido
Há quem saiba que o
soubesse pensando que o sabia
Há quem seja o mijo e a
adrenalina do dia e da urina
Há quem seja cigarro no
cu de judas
Há quem seja dinheiro na
vírgula de um engate
Há quem fosse urinol
E hoje dizem que é o sol
Houve quem fosse o poeta
dos urinóis
Há quem seja hoje croquete
e meia-dúzia de rissóis
Há quem seja carril
deitado na estrada
Há quem seja a estrada
Há quem seja a corda e a
bala
E a espada
Há quem seja a sebenta e
o livro
Há quem seja a fogueira e
a cegueira de uma alma
Há quem seja almofada
Há quem seja a cama
A cama cansada
Há quem seja a
trigonometria de um grito
Há quem esteja aflito e
hirto e fodido
Há quem seja o rio em
fúria na curva da vida
Há quem seja avião
E há quem tenha SIDA
Há quem diga que eu sou
tolo e louco
Há quem seja papel
higiénico
Há quem seja terra e mar
e vento
Há quem seja rolamento
Há quem seja veio e
também o seja roda dentada
Há quem seja corrente de
distribuição
Há quem seja moinho de
vento
E cavalo e depois pão
E sonho que o seja
Há quem seja erva
Há quem seja ovelha e
lesma e peixe amestrado
Há quem seja o pénis
Nos lábios de um drogado
Há quem seja pássaro e no
entanto há quem seja minuta de contracto
Há quem seja Viriato
E há quem seja assobio e
borato
E garganta no esperma da
noite
Há quem seja oceano e
fulano
E amigo do amigo do
cigano
E há quem seja engano
Nos retalhos de um pano.
31/05
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