09 abril 2026

pulava o sol acreditando que do outro lado da rua estava o sorriso da lua

pulava o sol acreditando que do outro lado da rua estava o sorriso da lua, e sabia-o como tanta coisa que eu sabia

sabia que do outro lado da rua, bem lá ao fundo e depois de virar a esquina à direita,

sabia-o, sabia que encontrava as últimas palavras do teu olhar

sabia que o fogo gélido da tua mão, estava lá

tão sonolenta como a espiga de trigo

tão sumarenta como um gomo de laranja

 

e tanta coisa que eu sabia, e que nunca deveria ter pulado o sol acreditando, que do outro lado da rua, e sabia-o como sabia que a primavera nada me diz, neste momento,

não sabia que o inverno, era o inferno

tão meigo como meigas são as tuas palavras…

e sabia que todos os barcos tinham um nome, de príncipes, de reis e de rainhas

que as flores, algumas, depois de adormecerem, são pétalas de espuma,

do amar, e do sofrer

 

pulava o sol acreditando que do outro lado da rua estava o mar

do mar que tantas vezes desenhei na areia e pela janela fora deitei

acreditando, e o sabia

que todas as coisas da minha vida eram apenas pedaços que nem de porcelana o eram, fingindo, que acreditava

sempre fingindo

que do outro lado da rua

 

estavam à minha espera, os teus doces lábios de mel

e mesmo assim eu pulei a rua, porque sabia

que do outro lado da rua, estava o sol

e a colmeia estrelar do teu simples olhar

tão meigo como a geada, e tão fino

tão fino como o silêncio de uma mariposa

 

sabia-o, sabia

que pulando o sol, ou pulando a rua, que do outro lado do sol ou que do outro lado da lua

ou que do outro lado da rua

estavam a vírgula e o ditado

e a aldeia dos macacos, e a sanzala do meu primeiro beijo

sabia-o, como sei hoje, que do outro lado da rua não está o sorriso da lua nem as últimas palavras do teu olhar

 

Alijó, 09/04/2026 - 04:54