pulava o sol acreditando
que do outro lado da rua estava o sorriso da lua, e sabia-o como tanta coisa
que eu sabia
sabia que do outro lado
da rua, bem lá ao fundo e depois de virar a esquina à direita,
sabia-o, sabia que
encontrava as últimas palavras do teu olhar
sabia que o fogo gélido
da tua mão, estava lá
tão sonolenta como a
espiga de trigo
tão sumarenta como um
gomo de laranja
e tanta coisa que eu
sabia, e que nunca deveria ter pulado o sol acreditando, que do outro lado da
rua, e sabia-o como sabia que a primavera nada me diz, neste momento,
não sabia que o inverno,
era o inferno
tão meigo como meigas são
as tuas palavras…
e sabia que todos os
barcos tinham um nome, de príncipes, de reis e de rainhas
que as flores, algumas,
depois de adormecerem, são pétalas de espuma,
do amar, e do sofrer
pulava o sol acreditando
que do outro lado da rua estava o mar
do mar que tantas vezes
desenhei na areia e pela janela fora deitei
acreditando, e o sabia
que todas as coisas da
minha vida eram apenas pedaços que nem de porcelana o eram, fingindo, que
acreditava
sempre fingindo
que do outro lado da rua
estavam à minha espera,
os teus doces lábios de mel
e mesmo assim eu pulei a
rua, porque sabia
que do outro lado da rua,
estava o sol
e a colmeia estrelar do teu
simples olhar
tão meigo como a geada, e
tão fino
tão fino como o silêncio
de uma mariposa
sabia-o, sabia
que pulando o sol, ou
pulando a rua, que do outro lado do sol ou que do outro lado da lua
ou que do outro lado da rua
estavam a vírgula e o
ditado
e a aldeia dos macacos, e
a sanzala do meu primeiro beijo
sabia-o, como sei hoje,
que do outro lado da rua não está o sorriso da lua nem as últimas palavras do
teu olhar
Alijó, 09/04/2026 - 04:54