07 abril 2026

O travesseiro, da cidade oculta

O travesseiro, da cidade oculta

As ruas que eram tão infinitas, como o infinito universo

Que tanto pesavam, de tão leves o serem

Comparadas com as minhas mãos

Distantes do orvalho, também elas infinitas

 

No rosto de alguém e também elas, famintas

A cama se conserva imóvel, de tão móvel ser a noite

À janela, púrpura a água silêncio

Desejo, depois de o beijo

Desenhar na areia os castelos das trevas nocturnas

 

E diurnas, de um sem-abrigo, de um sem-destino

Ser promovido a general e deixar de ser, de ser o menino

De ser, ser o inferno capaz de escrever na última paragem do comboio

O sangue que jorra da fraga, e ao rio vai ter

E se abraçar

 

O travesseiro, afoito, declina o olhar

Deita-se sobre a cama asseada, e de tão limpa

Ser a madrugada, a espada

O punhal que o soldado tem na carteira

Os cigarros são balas de fumo, e também obituários

Deste ou daquele perfume

 

Que à calçada lhe pertence, e a cada pedra pisada, um odor

Se liberta

Das garras do opressor, das garras do covarde

E mesmo assim, deus, dispensa-me

E não preciso de ir a exame

 

07/04/2026, 21:59