O travesseiro, da cidade
oculta
As ruas que eram tão
infinitas, como o infinito universo
Que tanto pesavam, de tão
leves o serem
Comparadas com as minhas
mãos
Distantes do orvalho,
também elas infinitas
No rosto de alguém e
também elas, famintas
A cama se conserva imóvel,
de tão móvel ser a noite
À janela, púrpura a água
silêncio
Desejo, depois de o beijo
Desenhar na areia os
castelos das trevas nocturnas
E diurnas, de um sem-abrigo,
de um sem-destino
Ser promovido a general e
deixar de ser, de ser o menino
De ser, ser o inferno
capaz de escrever na última paragem do comboio
O sangue que jorra da
fraga, e ao rio vai ter
E se abraçar
O travesseiro, afoito,
declina o olhar
Deita-se sobre a cama
asseada, e de tão limpa
Ser a madrugada, a espada
O punhal que o soldado
tem na carteira
Os cigarros são balas de
fumo, e também obituários
Deste ou daquele perfume
Que à calçada lhe pertence,
e a cada pedra pisada, um odor
Se liberta
Das garras do opressor,
das garras do covarde
E mesmo assim, deus, dispensa-me
E não preciso de ir a
exame
07/04/2026, 21:59