08 abril 2026

o que sobrou daquele rio, ontem

o que sobrou daquele rio, ontem

éramos a maré depois do pôr-do-sol

éramos ontem, dois pássaros sobre a lezíria

dos tantos cansaços, sempre cansados

os nossos corpos

e os nossos pecados

 

o que sobrou, de nós, tirando as páginas de uma sebenta…

nada

absolutamente nada, e ainda ontem, que éramos dois poemas

que éramos uma sanzala feliz, e que em cada cubata

havia uma criança que brincava, e éramos a chuva, e éramos a terra lavrada

à sombra da mangueira, quando ao longe, sentíamos

 

o apito de um barco, quando ao longe

vinha o azul silêncio, trazia com ele a alvorada de um olhar

que ainda ontem, éramos dois pontos de luz à velocidade

de um beijo, porque ontem, porque ainda ontem

o que sobrou daquele rio, ontem

que éramos a maré depois do pôr-do-sol

 

08/04/2026, 04:32