o que sobrou daquele rio,
ontem
éramos a maré depois do
pôr-do-sol
éramos ontem, dois
pássaros sobre a lezíria
dos tantos cansaços,
sempre cansados
os nossos corpos
e os nossos pecados
o que sobrou, de nós,
tirando as páginas de uma sebenta…
nada
absolutamente nada, e
ainda ontem, que éramos dois poemas
que éramos uma sanzala
feliz, e que em cada cubata
havia uma criança que
brincava, e éramos a chuva, e éramos a terra lavrada
à sombra da mangueira,
quando ao longe, sentíamos
o apito de um barco,
quando ao longe
vinha o azul silêncio,
trazia com ele a alvorada de um olhar
que ainda ontem, éramos
dois pontos de luz à velocidade
de um beijo, porque
ontem, porque ainda ontem
o que sobrou daquele rio,
ontem
que éramos a maré depois
do pôr-do-sol
08/04/2026, 04:32