Aos poucos na branca tela
que me olha, e talvez ela o sinta ou perceba o que dizem os meus olhos, e o que
escrevem as minhas mãos,
Mas isso é outra coisa,
aos poucos na branca tela oiço cada risco deixado pela melodia da cigarra, que
daqui a algumas horas, serão milhões de riscos e de sons de cigarras-milhões,
que da janela oiço, e que à janela fumo, cada roldana e cada parafuso desta
máquina complexa, desta máquina quase sucata, quase.
Erguia-se na alma do
beijo, cada madrugada sentida, mas ele apenas queria voar, mas ele apenas
gostava de barcos, e ele apenas soube o que era a saudade, depois da chuva,
quando ele de calções e em círculos e no quintal e à chuva, ela lhe pegava,
E eu sorria tanto, tanto
que acreditava, e que sentia que sempre que o vento chovia, e que sempre que
chovia sem vento
Do outro lado da cidade,
se erguia uma alvorada, depois uma manhã
E depois a tarde tão
cedo, e cedo tão cedo, a noite
Do acordar.
Se eu fosse uma cigarra
transformava a fome em sono, as lágrimas em ribeiras e todas as palavras,
Em melodias, que esta
tela sente, e ontem em contraluz, ele sentia
Que fumava que pensava,
que voar não lhe pertencia, porque então deus tinha-me dado asas, e que não se
queixa ele, depois do jantar
A ausência sonora da
cigarra.
10/04/2026, 19:46