10 abril 2026

A cigarra

Aos poucos na branca tela que me olha, e talvez ela o sinta ou perceba o que dizem os meus olhos, e o que escrevem as minhas mãos,

Mas isso é outra coisa, aos poucos na branca tela oiço cada risco deixado pela melodia da cigarra, que daqui a algumas horas, serão milhões de riscos e de sons de cigarras-milhões, que da janela oiço, e que à janela fumo, cada roldana e cada parafuso desta máquina complexa, desta máquina quase sucata, quase.

Erguia-se na alma do beijo, cada madrugada sentida, mas ele apenas queria voar, mas ele apenas gostava de barcos, e ele apenas soube o que era a saudade, depois da chuva, quando ele de calções e em círculos e no quintal e à chuva, ela lhe pegava,

E eu sorria tanto, tanto que acreditava, e que sentia que sempre que o vento chovia, e que sempre que chovia sem vento

Do outro lado da cidade, se erguia uma alvorada, depois uma manhã

E depois a tarde tão cedo, e cedo tão cedo, a noite

Do acordar.

Se eu fosse uma cigarra transformava a fome em sono, as lágrimas em ribeiras e todas as palavras,

Em melodias, que esta tela sente, e ontem em contraluz, ele sentia

Que fumava que pensava, que voar não lhe pertencia, porque então deus tinha-me dado asas, e que não se queixa ele, depois do jantar

A ausência sonora da cigarra.

 

10/04/2026, 19:46