19 março 2026

cartas

deixei de receber cartas

pouco me importa, na não importância de me escreverem

nunca recebi muitas cartas, algumas as escrevi

mas hoje, hoje não me apetece escrever cartas

e não tenho a quem escrever uma carta.

 

e mesmo que eu tivesse alguém para lhe escrever uma carta, o que poderia eu lhe escrever

ou dizer

dizer-lhe, e escrever-lhe

que nada tenho a dizer ou a escrever

a não ser, que tenho três peixes fantásticos

 

que há muito tempo a minha leitura se resume ao ler e reler, e voltar a ler (o antónio)

não sei porque o faço, mas sinto dentro mim uma janela

que sempre que estou perto dela, eu vejo e recebo o odor do mar

portanto, não me sinto cartas a quem as escrever

e ter

 

o que nunca tive, e que sempre tudo tive

que as minhas mãos brotam sangue, têm golpes, mas isso não me importa

porque já nada me importa

quando a eira de carvalhais agora é um amontoado de ervas, silvas, e pinheiros

e o meu corpo

 

em finas lâminas de lágrimas

e mil portas vão arder, das cartas que não escrevo

nas cartas a quem não tenho para escrever

e um dia, não sei quando nem me interessa saber, tal como as cartas a quem escrever

nem um filho(a) terei para numa lápide me escrever.

 

Alijó, 19/03/2026, 05:08

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