deixei de receber cartas
pouco me importa, na não
importância de me escreverem
nunca recebi muitas
cartas, algumas as escrevi
mas hoje, hoje não me
apetece escrever cartas
e não tenho a quem
escrever uma carta.
e mesmo que eu tivesse
alguém para lhe escrever uma carta, o que poderia eu lhe escrever
ou dizer
dizer-lhe, e escrever-lhe
que nada tenho a dizer ou
a escrever
a não ser, que tenho três
peixes fantásticos
que há muito tempo a
minha leitura se resume ao ler e reler, e voltar a ler (o antónio)
não sei porque o faço,
mas sinto dentro mim uma janela
que sempre que estou
perto dela, eu vejo e recebo o odor do mar
portanto, não me sinto
cartas a quem as escrever
e ter
o que nunca tive, e que
sempre tudo tive
que as minhas mãos brotam
sangue, têm golpes, mas isso não me importa
porque já nada me importa
quando a eira de
carvalhais agora é um amontoado de ervas, silvas, e pinheiros
e o meu corpo
em finas lâminas de
lágrimas
e mil portas vão arder,
das cartas que não escrevo
nas cartas a quem não
tenho para escrever
e um dia, não sei quando
nem me interessa saber, tal como as cartas a quem escrever
nem um filho(a) terei
para numa lápide me escrever.
Alijó, 19/03/2026, 05:08
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