08 janeiro 2026

cálculo quântico

em cima da giesta, dormia a mula

e sempre que chovia, na eira, um puto estudava cálculo quântico, que naquela altura ainda não existia,

e que,

quase amanhã será gente, o cálculo quântico

 

e sempre que chovia

a mula

a mula sorria

e que dançava

e que também era alegria

 

e na alegria da mula, o moleiro sobe ao sótão

fode a padeira, e depois senta-se

e depois,

descobre no bolso da camisa um bilhete, o que dizia

que perguntava à mula se tinha sentido

 

o perfume da oliveira, enquanto a giesta se penteava

enquanto o puto cresceu, e hoje é uma abobora

vestida, de tantas vezes vaiada, de tantas vezes, o veneno

na boca orgástica e o inverno veio e o inverno se sentou no chão árido de uma folha em papel, o moleiro gritou

 

e a padeira em constantes gemidos, que ainda hoje se ouvem

ao nascer do sol, quando o mar sai à rua

e quando o mar, pincela de alegria

o olhar de uma cidade, ou até

o olhar de uma galeria.

 

08/01/2026, 22:48


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