23 dezembro 2025

O último beijo da noite

Sentíamos, o que nós sentíamos

Quando descíamos

Quando nos sentávamos incertos, destintos

E éramos meninos, e éramos destinos

 

Na planície quase sargaço, que dois barcos rompiam

O silêncio do orvalho, a luz, a cinza

De uma árvore, depois de amada

Quando a sombra era apenas uma palavra

 

Quando o vício era a manhã, que se erguia

Até ao abismo, e também sentia

Sentíamos o desenlace de uma vírgula

Suspensa na janela capaz de se vestir e de partir

 

Levando consigo o último beijo da noite

Que nos despíamos, e sentíamos cada mordaça do nosso corpo…

Que era o centeio, e o pão

E o desejo, no desejo de uma mão

 

Que nos sentávamos, e que fumávamos

Pedaços de sombra embainhada e mais parecendo uma espada

Que tínhamos, e que sentíamos; a boca infinita

E faminta, de uma lágrima.

 

23/12/2025, 04:20

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