23 dezembro 2025

A miúfa de um corpo

A miúfa de um corpo descoberto, que lhe toca

Enquanto o lençol é prata, doirada

Na mão, em mão

E uma seara metamorfose, que descansa, e desencanta

A pirâmide milenar, de um olhar

Rasante voo sobre o silêncio de uma pomba

 

A sombra clandestina, e menina

Que a noite fabrica, e que depois, em fatias

Finas, semeia

Na ardósia, a nóia de uma veia

 

E o corpo fica húmos, túmulo secreto

A colmeia quase deserta, as abelhas partiram, e foram à descoberta

De novas flores, do pólen sémen que passeia, e que mancha

O branco de um lençol,

 

A veia, lacrimeja sítios, e equações de sono, capazes de erguer das profundezas do mar, a charrua, a lua

Que em nua virgem primaveril, alcança o sonho,

 

E o mata, e ele

Suicida-se no camuflado de um soldado,

Porque um rio nunca dorme, porque um rio, um rio nunca esquece

O corpo que afogou, mesmo que esse corpo seja anónimo, demónio

Ou até,

Um coitado, de um drogado

Ou um destino

Ou um amor proibido, ou até

O pai, ou a mãe…

Assistirem à morte de um filho

 

A miúfa de um corpo descoberto, que lhe toca

E ao orgasmo mais secreto, os meus parabéns, e sentidos pêsames,

Aos poetas, que vivem do sol, como eu, que quase não peso,

Pesando eu, tanto e tanto é o peso do meu corpo

Quando me deito, e o cansaço é oiro golpeado, em sangue, que brota da mão, que é o frio

Que é o miolo deserto de um deserto, quase um rio

Que outrora foi também, vejam lá

Seara, e fastio

 

E cio em cada pilar de uma esquina, quando o pobre é apedrejado, e o rico, quase

O fumo de um cigarro que avança, e de mão na lança, balança

Sobre a balança da outra mão

Que escreve, que escreve, que escreve

 

São precisos ovos, papel higiénico, a máquina de secar roupa em círculos de quase sono, olho-a e vejo as minhas cuecas azuis, em brincadeiras, em delírios, porque a veia incendeia, e almeja

A pobre de uma galinha

E que mais,

 

Digo à miúfa do meu corpo?

 

Que o natal é uma merda.

 

23/12/2025, 22:53

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