14 novembro 2025

Cais

 

Todos os cais serviam para aportarmos

De nenhum de nós, que éramos barcos

Tínhamos um nome

E todos nós morávamos no inferno, o sítio comum dos loucos

 

Éramos a noite que se vestia de Entrudo

Porque éramos barcos e que pintávamos os braços com as folhas caídas das árvores de papel colorido

E em cada portagem, uma bala se cravava no peito

 

Uma moeda nos servia de desespero, quando os portões se iluminavam, e logo depois

Era noite em todos os nossos camarotes, com janelinhas

Para o mar

 

Pouco depois, rangiam os ossos, pouco depois, colapsava a estrutura, e pouco depois

Se erguia da chuva a loiça que na véspera alguém tinha lançado da janela, de um qualquer dos barcos, de nós

 

Aos poucos sentia-se o frio dos carris, e cada barco, um em cada outro em nós, a professora acordava do sono profundo da tristeza de uma pequena flor entre as persianas da lua

Que sorria

E começava a correr ladeira abaixo como uma louca abelha em busca do pólen de uma lareira, em transe…

 

14/11/2025, 22:20

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