Todos os cais serviam
para aportarmos
De nenhum de nós, que
éramos barcos
Tínhamos um nome
E todos nós morávamos no
inferno, o sítio comum dos loucos
Éramos a noite que se
vestia de Entrudo
Porque éramos barcos e
que pintávamos os braços com as folhas caídas das árvores de papel colorido
E em cada portagem, uma
bala se cravava no peito
Uma moeda nos servia de
desespero, quando os portões se iluminavam, e logo depois
Era noite em todos os
nossos camarotes, com janelinhas
Para o mar
Pouco depois, rangiam os
ossos, pouco depois, colapsava a estrutura, e pouco depois
Se erguia da chuva a
loiça que na véspera alguém tinha lançado da janela, de um qualquer dos barcos,
de nós
Aos poucos sentia-se o
frio dos carris, e cada barco, um em cada outro em nós, a professora acordava
do sono profundo da tristeza de uma pequena flor entre as persianas da lua
Que sorria
E começava a correr ladeira
abaixo como uma louca abelha em busca do pólen de uma lareira, em transe…
14/11/2025, 22:20
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