06 setembro 2025

O Rei da selva

 

Podia ser o Rei da selva, mas nem o ardina da minha rua consigo ser,

Podia ser o vento que transporta as lágrimas até ao mar,

Podia ser apenas uma palavra, uma apenas

E se fosse eu a escolhê-la, certamente escolheria…

Mãe.

 

Podia ser o Rei da selva, podia ser o engenheiro de estruturas da NASA, até podia ser um pássaro, ou

Um peixinho, pequenino e nu

 

Mas eu apenas quero ser eu.

 

Podia ser Deus, viver no céu, feliz e contente

Podia ser um poeta, um mendigo-poeta, podia ser uma alface, depois mastigada,

Por uma gaja muito feia e horrivelmente, burra.

 

Podia ser um poema, despedido, nu

Só, só em cada rua

Perdido, na tempestade de uma sandes de fiambre.

Podia ser uma nota de cinquenta euros, e caso o fosse

Prostituía-me a cada outra nota de kwanzas, podia ser a lua encarnada, no azul desejo da lâmina de uma espada,

 

Cortar-me a cabeça em quatro pedacinhos.

 

Mas eu apenas quero ser eu,

O vizinho do vizinho, acompanhado ou o eu sozinho

À beira-mar semeado.

Podia ser até o Rei do Algarve,

Ou o ex-Rei da selva, podia ser África, numa cubata acorrentado aos lábios de uma preta,

Podia ser um mabeco, um machimbombo, uma janela

Ou um bombo, tolo, onde as pedras são lançadas até que acorde o dia,

 

E podia,

Podia o ser, apenas o sou,

O eu.

Apenas eu.

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