Podia ser o Rei da selva,
mas nem o ardina da minha rua consigo ser,
Podia ser o vento que
transporta as lágrimas até ao mar,
Podia ser apenas uma
palavra, uma apenas
E se fosse eu a
escolhê-la, certamente escolheria…
Mãe.
Podia ser o Rei da selva,
podia ser o engenheiro de estruturas da NASA, até podia ser um pássaro, ou
Um peixinho, pequenino e
nu
Mas eu apenas quero ser
eu.
Podia ser Deus, viver no
céu, feliz e contente
Podia ser um poeta, um
mendigo-poeta, podia ser uma alface, depois mastigada,
Por uma gaja muito feia e
horrivelmente, burra.
Podia ser um poema,
despedido, nu
Só, só em cada rua
Perdido, na tempestade de
uma sandes de fiambre.
Podia ser uma nota de cinquenta
euros, e caso o fosse
Prostituía-me a cada
outra nota de kwanzas, podia ser a lua encarnada, no azul desejo da lâmina de
uma espada,
Cortar-me a cabeça em
quatro pedacinhos.
Mas eu apenas quero ser
eu,
O vizinho do vizinho, acompanhado
ou o eu sozinho
À beira-mar semeado.
Podia ser até o Rei do
Algarve,
Ou o ex-Rei da selva,
podia ser África, numa cubata acorrentado aos lábios de uma preta,
Podia ser um mabeco, um
machimbombo, uma janela
Ou um bombo, tolo, onde
as pedras são lançadas até que acorde o dia,
E podia,
Podia o ser, apenas o
sou,
O eu.
Apenas eu.
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