02 setembro 2025

Espelho dos sonhos

 

Dizem que me inventaram numa noite de espinhos

quando dormia o sono

e todos os cheiros do teu corpo

deambulavam entre paredes de gesso

e pequenos quadrados de vidro

que a insónia lhes pegava com a mão

e os acariciava num espaço vazio

penumbro,

 

E fino como as asas dos anjos de brincar...

estou a falar da janela dos sonhos

e do espelho da saudade

onde me miro todos os dias ao acordar

e vejo-me crescer como crescem as ervas debaixo das lâminas de papel,

 

E vejo-me voar sobre as pétalas encarnadas da tristeza

dizem-me que fui inventada

pela mão de uma nuvem cinzenta

quando ainda existiam nuvens cinzentas na planície dos malignos esconderijos da paixão,

 

Hoje sou poeira como cigarros num quarto de vidro

a que alguns chamam de cinzeiro

outros delírios meus enquanto não me absorves e te alimentas de mim

dizem que fui inventada por ti

e aqui estou

esperando pelas tuas mandíbulas azuis que vivem dentro do medo,

 

Esperando pelas tuas mãos de cedro

que trazes nos olhos e das estrelas vadias...

os fins de tarde entalados no Tejo depois de amarelos peixes esquisitos

abraçarem-se-me e levarem-me antes de regressares para me resgatares do inferno

sentido que o amor deixa impregnado nas roupas minha pele...

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