30 agosto 2025

 

Tudo arde, o cérebro é uma vagina em cio, é o arbusto, trémulo, só

Só e com frio

Tudo arde, tudo é vazio, um copo com água, uma metralhadora, um fio, uma mulher grávida, uma espingarda

Tudo arde, a lebre corre mar adentro, a casa é uma ruína, o menino, tem má sina, a chuva cai,

Cai em cima, sobre a mão, depois da morte

 

Ele nunca teve sorte, o capim abraçava-o, e hoje

Não capim, não abraço, ia ao terraço, puxava um cigarro, inventava árvores, onde só habitavam, pedras

E laços, e pescoços trociscados, arrefecidos por nitrogénio, o mais barato que puder, que fique em conta

Na montra, no rio sonâmbulo, que a terra arde, como tudo

 

Arde.

 

Dois corpos em lágrimas de fogo, dois livros, presos, numa prateleira quase medusa, também às vezes

O pequeno cobertor, o lírio de uma égua, o latir do cachorro, quando regressa

A noite.

 

Tudo arde, na noite.

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