um fio de água
prende-se-lhe ao pescoço, nunca soube o que era ser
mesmo depois de o ser,
mesmo depois de morrer
o rio transpira no sono
ingénuo de uma abelha vestida com trapos, e réstias na insónia
escondem-se sob a cama,
diz-se construído de árvore, de cenoura
dizem que era tão tolo,
que depois de tolo
quis ser astronauta, mesquinhez
capaz de sobrevoar as sandálias mais cabisbaixas da planície virgem do adeus, e
um dia
partiu
desfez-se em lágrimas de
sangue, na água em fio, aperta-se-lhe ao pescoço
sufoca-o até que nasce o
dia, e as vertebras da inocência
são o grito da noite
anterior
a raiva amarra-o,
alicerça-o ao destino, se a fogueira adormecer, também ele morrerá na ausência
de uma mão
na luz magra do último
beijo, a maresia de um olhar
a flor em papel, depois
chove
e crescem mãos sem dedos
nas lágrimas da flor
e o fio de água mata-o, e
ele sorri.