25 junho 2025

fio de água

 

um fio de água prende-se-lhe ao pescoço, nunca soube o que era ser

mesmo depois de o ser, mesmo depois de morrer

o rio transpira no sono ingénuo de uma abelha vestida com trapos, e réstias na insónia

escondem-se sob a cama, diz-se construído de árvore, de cenoura

 

dizem que era tão tolo, que depois de tolo

quis ser astronauta, mesquinhez capaz de sobrevoar as sandálias mais cabisbaixas da planície virgem do adeus, e um dia

partiu

desfez-se em lágrimas de sangue, na água em fio, aperta-se-lhe ao pescoço

sufoca-o até que nasce o dia, e as vertebras da inocência

são o grito da noite anterior

 

a raiva amarra-o, alicerça-o ao destino, se a fogueira adormecer, também ele morrerá na ausência de uma mão

na luz magra do último beijo, a maresia de um olhar

a flor em papel, depois chove

e crescem mãos sem dedos nas lágrimas da flor

 

e o fio de água mata-o, e ele sorri.