25 junho 2025

a estrada

 

que da estrada se cansa, do outro pequeno orifício confundido com o destino, quando acorda manhã cedo, puxa por um cigarro, o destino adora peixes, um aquário menino

sentindo a maresia de uma lágrima

a estrada, agora, é uma espada

cravada no silêncio quase chuva, na mão de uma menina

mimada

 

a estrada não se cansa, mas está cansada

cansada da vida, cansada

de ser estrada,

na estrada

da vida

de não ser nada

 

de vida em vida, de casaco em camisola de lã, olha pela janela

e todos os barcos do oceano, e todas as âncoras do amanhecer

são agora pedaços de fruta, palavras que foram escritas, e que agora estão em outro destino, também ele, menino

a arder

 

que da estrada se cansa, e encomenda o seu caixão, telefona para o luar, pede o seu último desejo, passear na praia, sentar-se numa cadeira de vime, olhar o mar e fumar

até que seja noite

 

até que o mar deixe de ser mar

e que a morte floresça, e que na morte, ele finalmente adormeça

e que ele, e que ele nunca esqueça

que a estrada está cansada e é uma puta vestida de espátula

perdida

 

na estrada.