Onde está a paixão de um grão, de trigo loiro desejo
Onde está, onde se esconde a mão de um beijo,
Como se apelidará a noite depois da chuva, onde está o não
Eu quero ir à lua numa barcaça de centeio, e ao fundo do corredor, a mesa, o cadeirão
De um velho defunto,
Com uma mão corto, e com a outra mão
Semeio,
Sandálias de couro.
Onde está o silêncio de uma mão sem destino, numa mão que masturba a noite, uma árvore que sorri, e que lhe dói
O maldito fígado.
E depois o sono, e depois quase
Desenho animado, pedra-pomes, e menino mimado,
Às sextas-feiras, é poeta
Aos sábados, matraquilho de fim-de semana…
Rasgou a saia na silva atrevida, quando de raspão lhe tocou
E a vaidosa Adosinda, de sorriso na boca
E na boca tinha sempre dois escudos e cinquenta centavos, sempre que lhe levava o almoço,
Para me dar. Tão querida, esta tiazinha quase mouca, depois cegou, depois acordou, uma bela manhã
Morta.
Ao final da tarde, juntos, semeávamos alicates de pressão na agreste terra que tínhamos herdado de uma vizinha que em tempos, muito longínquos, tinha sido trapezista numa cabine telefónica, pública.
E eu pergunto, aproveito, quem publica estas merdas que escrevo?
Onde está a paixão de um parafuso, quando de relance, vê pela primeira vez a porca da maria e a gazela mais besta da floresta, a anilha mercedes, enquanto aos domingos,
Estamos encerrados por motivos pessoais.
Dizem que a mulher lhe pôs os palitos; se é verdade ou não
Quem, quem publica estas merdas que escrevo?
E Adosinda sorria, minha tia minha querida
Tia,
Ela rezava, e eu, sofria, descia a rua do pelourinho
Entrava no Grifo,
E
Senhor Grifo há cromos novos?
E um grão de milho, quando eu visitava Carvalhais, quando eu tinha a janela aberta
Ele entrava em mim, ele me escutava sabendo que
Eu, o podia comer
E, no entanto, estava ali, o palerma… em cima da caixa da farinha, da minha avó
Às vezes, às vezes saboreava um pequeno grão de milho
Sentia-o na boca, ouvia dele a paleta de cores, que durante a noite utilizava para pincelar os meus sonhos.
Depois, depois não houve mais janela, o grão de milho, um dia, foi o pão que a tia Clementina amassou e cozeu durante a madrugada,
O parafuso, estático, enquanto observa o entarraxar de uma porca, sorri,
Eu, eu leio os olhos de uma viga metálica, alveolada como a raiz de uma gaivota, depois do incesto entre a sombra e a parede, e queira deus acreditar, que se eu soubesse que a alvorada é apenas o desejo
De
Uma pedra,
Eu ia a Roma ver o papa e pedir perdão,
Ao PAPA.
Só pode ser da qualidade do aço, eu sempre vos disse, meus meninos
Cuidado com o aço chinês,
Mas vocês,
São gananciosos, são abstractos meninos nos coiros inventados por uma bruxa, quando ainda havia aldeias, porque bruxas,
Ainda as há, e muitas.
Onde está a paixão, de um grão, de trigo loiro centeio quando a madrugada é uma pedra, é uma sandália, tão velha como o próprio cagar,
Onde está a paixão, de um grão
Doente,
Caçado por uma espada, cravada no peito
Depois,
A maré adivinha o sono
E dos barcos cansados, quase homens, quase sexos enrolados na areia fina do Mussulo,
Cospe sobre a mesa as sobras do poema de ontem.
Onde está o grão, da paixão manhã de um pobre,
Grão,
De trigo?
Onde.
Está o grão de uma paixão?
E será uma estrela o grão? Da paixão?
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