éramos tão dúcteis, como silêncio é a noite do meu livro
escrevo nele coisas, escrevo nele
e semeio traços com lábios de mel
éramos tão fúteis, e folha em papel
éramos parafusos, éramos roldanas, cabo de aço
estrutura metálica,
éramos o rio esfomeado de corpos, do teu corpo quase sémen
na minha mão que escreve
neste apodrecido livro, neste só, neste endiabrado parêntesis, de um só verbo que acorda em mim,
em nós quase que éramos o sono de dois sós lençóis de espuma,
se um dia o formos, o éramos antes da revolta
dos peixes deste mar, na janela com a tua fotografia,
éramos o vinho, e éramos o vento depois da chuva, uma flor é perfeitamente alegre, e os seus filhos, quase que voam sobre o mar dos teus olhos
quase que éramos o luar, se a noite não fosse a mais bela noite da floresta, éramos o veneno
e eu bebe-o dos teus seios, éramos o inferno fogo de uma muralha em congestão, ela ruiu, ela morreu
e hoje somos alegria, e hoje somos poesia
sobre as sandálias do pescador.
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