12 abril 2025

as sandálias do pescador

éramos tão dúcteis, como silêncio é a noite do meu livro

escrevo nele coisas, escrevo nele

e semeio traços com lábios de mel

éramos tão fúteis, e folha em papel

éramos parafusos, éramos roldanas, cabo de aço

estrutura metálica,


éramos o rio esfomeado de corpos, do teu corpo quase sémen

na minha mão que escreve

neste apodrecido livro, neste só, neste endiabrado parêntesis, de um só verbo que acorda em mim,

em nós quase que éramos o sono de dois sós lençóis de espuma,

se um dia o formos, o éramos antes da revolta

dos peixes deste mar, na janela com a tua fotografia,



éramos o vinho, e éramos o vento depois da chuva, uma flor é perfeitamente alegre, e os seus filhos, quase que voam sobre o mar dos teus olhos

quase que éramos o luar, se a noite não fosse a mais bela noite da floresta, éramos o veneno

e eu bebe-o dos teus seios, éramos o inferno fogo de uma muralha em congestão, ela ruiu, ela morreu

e hoje somos alegria, e hoje somos poesia

sobre as sandálias do pescador. 


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