Havia uma janela que dava para as traseiras da cubata, ouviam-se os mabecos em conversações, discutiam, guerreavam-se, como se guerreavam os homens
E todos os habitantes do musseque.
Os barcos, eram fantoches vestidos de luz e de outras aparições, diziam-me que aos sábados
- patrão amanhã sábado ao sábado eu ir voar
Uma sandes mal-aviada, uma cuca, e
E diziam-se os homens mais felizes do musseque.
Eu nunca tinha visto um cavalo branco, tão branco como a pele da geada, tão puro
Como a água fria da ribeira,
Uma adolescente montava-o, eu
Olhava-os,
Como se fossem o fogo aprisionado numa lareia quase invisível
Perto do capim, quase sobre a mesa
Uma panela esquecida,
Umas cuecas em cetim, e um pedaço de esperma no chão térreo, eu sabia que do outro lado do rio
O Congo, o rio Congo. Fiz-me à estrada, carregava comigo o peso de uma infância pincelada de noite
Com doze anos fui para Mirandela trabalhar, aprender mecânica,
Quando aquilo que eu queria,
Era apenas brincar. Quando a saudade apertava, eu pegava na bicicleta, metia-me no comboio até ao Tua e subia, subia até que quando chegava a casa, beijava a minha mãe
E só acordava ao outro dia.
Com dezassete anos vim para esta terra, apaixonei-me loucamente por uma mulher muito mais velha e casada
E com filhos quase da minha idade.
Havia uma janela, adolescente e cavalo, hoje ainda se passeiam pelo musseque,
Ela tinha um irmão meio louco que tinha uma mota de motocross, aquela coisa sobre a mesa
Aquilo no chão, um pedaço de vida, que só é vida
Quando abraça o óvulo.
Ainda duvidam de Deus?
Tudo tão perfeito. Tudo em seu lugar. Até o juízo, Deus o nos dá
E também Deus nos o tira,
Quando lhe apetece.
A seu belo prazer.
Depois, nunca ninguém percebeu porque ele atravessou o rio Congo e foi para o Congo Belga, hoje Républica Democrática do Congo, ouviam-se tiros, e ele acreditava que era imune à morte,
Até que um dia morreu. Cancro.
- porquê pai? Essa mulher era mais importante do que o meu nascimento,
Quase mar depois do pôr-do-sol.
Uma janela, do outro lado do musseque
Uma mulher quase monstro fodida por um gaiato quase homem,
Agarrava-a por trás, e anualmente descrevia uma circunferência decimal, mal acordava a noite
Ele escondia-se no quarto do anexo.
Puxava um cigarro, acendia-o, abria um livro, e
Sentia-se o dono do destino.
- amavas essa mulher ao ponto de…?
Ela sorrateiramente metia-se na cama, dava um beijo na testa do marido, e quando acordavam
- bom dia amor, dormiste bem?
Sim, muito bem, tal e qual
Como um cornudo.
Tal e qual, eu quase sem pai, a minha mãe sendo mãe e pai, e o meu pai
A foder uma velha desde a madrugada até ao pôr-do-sol.
Eu nasci em Luanda, soube há pouco tempo, que aqueles que nasceram em Luanda eram chamados de Calcinhas
- então você é calcinha?
Eu? Como?
Gosto quando me fodes,
E nada era como dantes, nada era o adeus, e as amarras ficaram suspensas num pedaço de manga, quando caía ao chão
E
Plaf,
Uma pedra no charco, uma âncora de sujidade junto à púbis, a manhã deserta, e foge também
Para o Congo Belga.
Tanta coisa que eu queria saber,
Porquê?
- sim amava-a.
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