07 fevereiro 2025

Tanta coisa que eu queria saber, Porquê?

Havia uma janela que dava para as traseiras da cubata, ouviam-se os mabecos em conversações, discutiam, guerreavam-se, como se guerreavam os homens

E todos os habitantes do musseque.

Os barcos, eram fantoches vestidos de luz e de outras aparições, diziam-me que aos sábados

- patrão amanhã sábado ao sábado eu ir voar

Uma sandes mal-aviada, uma cuca, e

E diziam-se os homens mais felizes do musseque.

Eu nunca tinha visto um cavalo branco, tão branco como a pele da geada, tão puro

Como a água fria da ribeira,

Uma adolescente montava-o, eu

Olhava-os,

Como se fossem o fogo aprisionado numa lareia quase invisível

Perto do capim, quase sobre a mesa

Uma panela esquecida,

Umas cuecas em cetim, e um pedaço de esperma no chão térreo, eu sabia que do outro lado do rio

O Congo, o rio Congo. Fiz-me à estrada, carregava comigo o peso de uma infância pincelada de noite

Com doze anos fui para Mirandela trabalhar, aprender mecânica,

Quando aquilo que eu queria,

Era apenas brincar. Quando a saudade apertava, eu pegava na bicicleta, metia-me no comboio até ao Tua e subia, subia até que quando chegava a casa, beijava a minha mãe

E só acordava ao outro dia.

Com dezassete anos vim para esta terra, apaixonei-me loucamente por uma mulher muito mais velha e casada

E com filhos quase da minha idade.

Havia uma janela, adolescente e cavalo, hoje ainda se passeiam pelo musseque,

Ela tinha um irmão meio louco que tinha uma mota de motocross, aquela coisa sobre a mesa

Aquilo no chão, um pedaço de vida, que só é vida

Quando abraça o óvulo.

Ainda duvidam de Deus?

Tudo tão perfeito. Tudo em seu lugar. Até o juízo, Deus o nos dá

E também Deus nos o tira,

Quando lhe apetece.

A seu belo prazer.

Depois, nunca ninguém percebeu porque ele atravessou o rio Congo e foi para o Congo Belga, hoje Républica Democrática do Congo, ouviam-se tiros, e ele acreditava que era imune à morte,

Até que um dia morreu. Cancro.

- porquê pai? Essa mulher era mais importante do que o meu nascimento,

Quase mar depois do pôr-do-sol.

Uma janela, do outro lado do musseque

Uma mulher quase monstro fodida por um gaiato quase homem,

Agarrava-a por trás, e anualmente descrevia uma circunferência decimal, mal acordava a noite

Ele escondia-se no quarto do anexo.

Puxava um cigarro, acendia-o, abria um livro, e

Sentia-se o dono do destino.

- amavas essa mulher ao ponto de…?

Ela sorrateiramente metia-se na cama, dava um beijo na testa do marido, e quando acordavam

- bom dia amor, dormiste bem?

Sim, muito bem, tal e qual

Como um cornudo.

Tal e qual, eu quase sem pai, a minha mãe sendo mãe e pai, e o meu pai

A foder uma velha desde a madrugada até ao pôr-do-sol.

Eu nasci em Luanda, soube há pouco tempo, que aqueles que nasceram em Luanda eram chamados de Calcinhas

- então você é calcinha?

Eu? Como?

Gosto quando me fodes,

E nada era como dantes, nada era o adeus, e as amarras ficaram suspensas num pedaço de manga, quando caía ao chão

E

Plaf,

Uma pedra no charco, uma âncora de sujidade junto à púbis, a manhã deserta, e foge também

Para o Congo Belga.


Tanta coisa que eu queria saber,

Porquê?


- sim amava-a.


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