23 fevereiro 2025

O último adeus, na despedida do corpo

O último adeus, na despedida do corpo, depois da chuva, depois do vento

Depois da lua e depois da noite,

Voltar a ser estrela, quando a noite

Inventa o quadrado na mão do sol


Depois é espada, se crava no peito

Depois é lata, é miséria, depois é morte certa

Na certeza da morte, se o beijo o permitir

O último adeus, a última morada conhecida, depois a chuva,

Depois a mão…


Um caixão

Outra morada, quantos silêncios nesta nova morada

Depois a mão,

Novamente a merda da mão que procura outra mão

Depois da chuva, depois do vento


E se a mão procura outra mão

Porque não procura a mão, aquela mão que ficou sobre a secretária de um abraço

A despedida,

Ao fundo o rio,

Ao fundo,

Bem ao fundo

O meu corpo quase morte

Quase tristeza,


Quase má sorte e beleza.

Depois o tempo, depois a corda ao pescoço, a pistola que dispara contra a cabeça o poema da noite anterior,

Depois morre também;

E quem morre, também?

Se também morre a criança, a mãe da criança e a árvore, que um dia

Também foi criança

Que depois da chuva

E do vento,

Novamente criança,

Novamente, sempre sem tempo

A mão que procurava a outra mão,

O outro destino.


Que também morreu, ainda menino.

Depois é lua, depois quer ser gente, quer ser pão, quer ser palavra

E desejo e os sexos exaustos na confusão da noite,

Os corpos dentro de um copo com água, de fora ainda a mão, que procura outra mão

Que procura a corda no pescoço da madrugada


Também ela com a mão de fora.

Depois

É água, foi lágrima, foi soldado e foi espingarda

E foi outra lua em outra vida noutra morada, com uma outra mão

Enquanto se masturba dentro de um livro doente

Novamente é gente,

Novamente chuva

E vento

E pedras sobre o telhado do vizinho


Suicida-se acreditando que tem na mão um destino 

Uma flor outrora que tinha sido um barco, na mão de um menino

Tão fundo aquele outro navio sem comandante, depois foi estrela

Foi puta nas ruas de Lisboa, foi dinheiro, foi sótão

Escada de acesso ao céu,

Depois foi metralhadora, mais conhecida por

Alvorada, em marcha, uma calçada

Outra morada, uma outra mão

Que procurava uma mão


Depois foi chuva, depois vento

Depois vagina travestida de alegria, que se vestia

Tão belamente vestida,

Que diziam que era a vagina mais bela

De todas as vaginas belas da cidade…


E de todas as vaginas vestidas.

Até chegou a ser milagre, rezavam por ele, colocavam velas invisíveis no seu leito de morada,

Depois foi chuva, depois foi vento

Depois foi tudo depois foi nada

Foi rua e foi cidade

Foi mulher-a-dias numa triste morada, ausentou-se, depois

Sentou-se,

E depois bebeu o veneno,

Bateu palmas, sorriu

E caiu,

Sobre o chão térreo de uma lágrima.


(O último adeus, na despedida do corpo, depois da chuva, depois do vento

Depois da lua e depois da noite,

Voltar a ser estrela, quando a noite

Inventa o quadrado na mão do sol)


Depois foi chuva, depois foi vento, foi criança e foi pensamento

Foi a fome que se escondia no dia,

Entre poesia

E uma quase noite debaixo da neblina,

Também foi azulejo de uma cozinha, foi exaustor, sopa de cebola,

Foi café,

E foi mortadela, dentro de um triste pão

Foi Janeiro, foi Julho e foi Setembro

Foi a morte, foi uva, caixa de sapatos sobre a braseira,

Foi luva e foi frieira,

E também foi a enxada,

E também foi uma ribeira.


Foi geada, foi vidro quebrado,

Foi automóvel e foi papel higiénico, e foi chuva e foi vento foi noite sem dormir, e foi palavra disparada

Pela espingarda, e foi verbo e foi outra vez

Água, foi arroz, foi árvore, disfarçada

Foi sapato calçado, chinelo descalço, foi capim, e foi barco nas mãos do pai, foi lua e foi o mar

E foi o verde e foi o azul

E foi silêncio, e foi chuva e foi vento

E foi talvez morte,


E foi talvez, cancro.


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