O último adeus, na despedida do corpo, depois da chuva, depois do vento
Depois da lua e depois da noite,
Voltar a ser estrela, quando a noite
Inventa o quadrado na mão do sol
Depois é espada, se crava no peito
Depois é lata, é miséria, depois é morte certa
Na certeza da morte, se o beijo o permitir
O último adeus, a última morada conhecida, depois a chuva,
Depois a mão…
Um caixão
Outra morada, quantos silêncios nesta nova morada
Depois a mão,
Novamente a merda da mão que procura outra mão
Depois da chuva, depois do vento
E se a mão procura outra mão
Porque não procura a mão, aquela mão que ficou sobre a secretária de um abraço
A despedida,
Ao fundo o rio,
Ao fundo,
Bem ao fundo
O meu corpo quase morte
Quase tristeza,
Quase má sorte e beleza.
Depois o tempo, depois a corda ao pescoço, a pistola que dispara contra a cabeça o poema da noite anterior,
Depois morre também;
E quem morre, também?
Se também morre a criança, a mãe da criança e a árvore, que um dia
Também foi criança
Que depois da chuva
E do vento,
Novamente criança,
Novamente, sempre sem tempo
A mão que procurava a outra mão,
O outro destino.
Que também morreu, ainda menino.
Depois é lua, depois quer ser gente, quer ser pão, quer ser palavra
E desejo e os sexos exaustos na confusão da noite,
Os corpos dentro de um copo com água, de fora ainda a mão, que procura outra mão
Que procura a corda no pescoço da madrugada
Também ela com a mão de fora.
Depois
É água, foi lágrima, foi soldado e foi espingarda
E foi outra lua em outra vida noutra morada, com uma outra mão
Enquanto se masturba dentro de um livro doente
Novamente é gente,
Novamente chuva
E vento
E pedras sobre o telhado do vizinho
Suicida-se acreditando que tem na mão um destino
Uma flor outrora que tinha sido um barco, na mão de um menino
Tão fundo aquele outro navio sem comandante, depois foi estrela
Foi puta nas ruas de Lisboa, foi dinheiro, foi sótão
Escada de acesso ao céu,
Depois foi metralhadora, mais conhecida por
Alvorada, em marcha, uma calçada
Outra morada, uma outra mão
Que procurava uma mão
Depois foi chuva, depois vento
Depois vagina travestida de alegria, que se vestia
Tão belamente vestida,
Que diziam que era a vagina mais bela
De todas as vaginas belas da cidade…
E de todas as vaginas vestidas.
Até chegou a ser milagre, rezavam por ele, colocavam velas invisíveis no seu leito de morada,
Depois foi chuva, depois foi vento
Depois foi tudo depois foi nada
Foi rua e foi cidade
Foi mulher-a-dias numa triste morada, ausentou-se, depois
Sentou-se,
E depois bebeu o veneno,
Bateu palmas, sorriu
E caiu,
Sobre o chão térreo de uma lágrima.
(O último adeus, na despedida do corpo, depois da chuva, depois do vento
Depois da lua e depois da noite,
Voltar a ser estrela, quando a noite
Inventa o quadrado na mão do sol)
Depois foi chuva, depois foi vento, foi criança e foi pensamento
Foi a fome que se escondia no dia,
Entre poesia
E uma quase noite debaixo da neblina,
Também foi azulejo de uma cozinha, foi exaustor, sopa de cebola,
Foi café,
E foi mortadela, dentro de um triste pão
Foi Janeiro, foi Julho e foi Setembro
Foi a morte, foi uva, caixa de sapatos sobre a braseira,
Foi luva e foi frieira,
E também foi a enxada,
E também foi uma ribeira.
Foi geada, foi vidro quebrado,
Foi automóvel e foi papel higiénico, e foi chuva e foi vento foi noite sem dormir, e foi palavra disparada
Pela espingarda, e foi verbo e foi outra vez
Água, foi arroz, foi árvore, disfarçada
Foi sapato calçado, chinelo descalço, foi capim, e foi barco nas mãos do pai, foi lua e foi o mar
E foi o verde e foi o azul
E foi silêncio, e foi chuva e foi vento
E foi talvez morte,
E foi talvez, cancro.
Sem comentários:
Enviar um comentário