22 fevereiro 2025

É quase novamente noite, é quase uma roda dentada, a primeira lágrima da lua, é quase gente, muita mentira

É quase novamente noite, é quase uma roda dentada, a primeira lágrima da lua, é quase gente, muita mentira

Naquele dia acordou acreditando que o sol era apenas mais uma mentira, como tantas outras, dia após dia,

Noite entre tantas noites, e tantas raízes nos muros da solidão.

Naquele dia percebeu que é impossível abrir janelas enquanto a noite está vestida de cinzento sofrimento, lá fora

Um miúdo que parte vidros à pedrada, uma miúda que me partiu a cabeça, à pedrada, muitos mais anos mais tarde,

Foi minha namorada. Muitas vezes lhe perguntei porque me tinha atirado com uma pedra, que me tinha partido a cabeça, e ela,

Sorria a cada pedra, atirada.


Talvez aquela pedrada, já fosse o amor.


Naquele dia uma fina película de alumínio escondia-se-lhe por entre os dedos quase mortos, quase trémulos na sombra castanha de uma bolha em movimento,

Da esquerda para a direita, parava um pouco, respirava, um ou outro vómito,

Depois,

Nava viagem, estrada abaixo, da direita para a esquerda,

Mais uma paragem, mais um pequeno vómito

E anos depois, esquecia-se de quem era e o que foi, e talvez

Nunca o foi.

Acordava horas depois, e percebia que a miúda tinha mesmo

Pontaria.

E se ela era assim em miúda a atirar pedras, imaginava-a anos mais tarde

A atirar cupidos contra o vento e contra os jardins. Levei com um, e fodi-me.


Era Agosto. Finalmente tinha-me libertado do obrigatório serviço militar, ainda estava confuso, há dois dias que não ia a casa, quando apenas lá tinha entrado para atirar com a mochila para o chão, sem antes ter beijado a minha mãe.

Esqueci-me do almoço e esqueci-me do jantar, e adiante que não interessa

Continuando, numa dessas noites, já muito noite, eu quase silêncio encostado à porta de um bar,

 

Tentei desencostar-me da porta, confesso que difícil, mas consegui,

Olhei-a, ela olhou-me, ficámos imoveis, como dois móveis,

Voltamos a olhamo-nos, quase nada dissemos, quase que os olhos tudo diziam, e viemos a descobrir que ambos éramos apaixonados por livros, e que tínhamos muitos sonhos,

E que numa qualquer madrugada, quando a minha pele se vestia na pele dela,

E descobri, que aquela mulher que eu tinha nos braços

Foi a mesma que muitos anos antes,

Me tinha atirado com uma pedra e me tinha rachado a cabeça.

Perdoei-lhe aquele acto da sua infância, e quando acordamos,

Já era noite novamente.

E um rio se despedia de um corpo. 


Às vezes era o comboio que se sentava no meu colo, às vezes era uma cidade vestida de negro, sempre cabisbaixa, sempre uma folha de alumínio reluzindo-lhe nos dedos, capaz de subir à montanha e desenhar um rio na senhora da dos prazeres.

Sempre a água, sempre a noite

Quando ele,

Já nem sabia se era noite

Ou se era dia.

E um dia, farto do dia, farto da noite quase dia e do dia, quase noite

Vestiram-no, e partiu.


Sem antes se ter despedido de mim.


E eu detesto que se despeçam de mim. Detesto.

Mas ele, fê-lo. E ela também, também se despediu de mim.

Quanto a mim, não faço intensão de me despedir de quem quer que seja,

Mesmo que seja o vento.


Li há pouco que mais uma palavra foi assassinada esta tarde. Mas isto de assassinar palavras não tem fim?


Também que uma vírgula foi atropelada junto à estação de metro de superfície sem que ainda não se tenha dado conta de que: de superfície nada tem.


E tal como vocês querem que eu me foda, sinceramente, também eu quero que vocês se fodam.

Que eu não ganho dinheiro com o que escrevo, e tão pouco me importa, que não entendo porque vêm à merda deste blog todos os dias a qualquer hora.

Não sou poeta, sou apenas um gajo que fumou muitas coisas na vida, isto é: gramas.


É quase novamente noite, é quase uma roda dentada, a primeira lágrima da lua, é quase gente, muita mentira

Naquele dia acordou acreditando que o sol era apenas mais uma mentira, como tantas outras, dia após dia,


As melhoras para o Santo Padre que é ainda o único gajo que se aproveita neste planeta.


O copo de uísque dorme docemente na minha sombra, peço-lhe um beijo, ela dá-me dois, há um relógio que não é mais um relógio, foi em tempos um relógio

Hoje é uma revista pornográfica que se passeia pelas ruas da aldeia, de máquina fotográfica ao ombro,

E entre os dedos,

Um apito,

Um uivo, o gemido da voz contra o sémen da noite, dois corpos em tesão, dois dedos na vagina, e mesmo assim

Ainda há quem diga que a melhor coisa do mundo não é: foder.


Para o senhor Álvaro de Campos, que não há coisa melhor no mundo, do que 

Comer chocolates; come chocolates, pequena, come chocolates…

E o senhor Álvaro de Campos que se foda também,

Porque a melhor coisa do mundo

É foder e é ser fodido também.


Uma lágrima diz adeus ao carrossel. O sexo anal escondido junto ao chafariz da aldeia, do outro lado do mar, outro sexo, outra morada, o defecar

De um beijo

Na rua acabada de morrer.


É quase meio-dia, o que é o almoço?


Hoje meu querido vais comer poesia.


É quase tudo uma merda, no entanto, deus que criou o mundo e a beleza, também criou a merda

E também criou a estupidez e a burrice.

E se um dia eu conseguir acordar, será noite desde Janeiro do ano anterior.


Uma mágoa. A serpente dentro do corpo, o fogo cansaço de uma noite de circo, a plateia aplaude e a lua é a maior das putas de todas as putas da noite.


Irão dizer: o gajo passou-se.

O gajo ficou maluco.

O gajo pirou da mioleira.


Depois.

Um dia.


Noite.


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