É quase novamente noite, é quase uma roda dentada, a primeira lágrima da lua, é quase gente, muita mentira
Naquele dia acordou acreditando que o sol era apenas mais uma mentira, como tantas outras, dia após dia,
Noite entre tantas noites, e tantas raízes nos muros da solidão.
Naquele dia percebeu que é impossível abrir janelas enquanto a noite está vestida de cinzento sofrimento, lá fora
Um miúdo que parte vidros à pedrada, uma miúda que me partiu a cabeça, à pedrada, muitos mais anos mais tarde,
Foi minha namorada. Muitas vezes lhe perguntei porque me tinha atirado com uma pedra, que me tinha partido a cabeça, e ela,
Sorria a cada pedra, atirada.
Talvez aquela pedrada, já fosse o amor.
Naquele dia uma fina película de alumínio escondia-se-lhe por entre os dedos quase mortos, quase trémulos na sombra castanha de uma bolha em movimento,
Da esquerda para a direita, parava um pouco, respirava, um ou outro vómito,
Depois,
Nava viagem, estrada abaixo, da direita para a esquerda,
Mais uma paragem, mais um pequeno vómito
E anos depois, esquecia-se de quem era e o que foi, e talvez
Nunca o foi.
Acordava horas depois, e percebia que a miúda tinha mesmo
Pontaria.
E se ela era assim em miúda a atirar pedras, imaginava-a anos mais tarde
A atirar cupidos contra o vento e contra os jardins. Levei com um, e fodi-me.
Era Agosto. Finalmente tinha-me libertado do obrigatório serviço militar, ainda estava confuso, há dois dias que não ia a casa, quando apenas lá tinha entrado para atirar com a mochila para o chão, sem antes ter beijado a minha mãe.
Esqueci-me do almoço e esqueci-me do jantar, e adiante que não interessa
Continuando, numa dessas noites, já muito noite, eu quase silêncio encostado à porta de um bar,
Tentei desencostar-me da porta, confesso que difícil, mas consegui,
Olhei-a, ela olhou-me, ficámos imoveis, como dois móveis,
Voltamos a olhamo-nos, quase nada dissemos, quase que os olhos tudo diziam, e viemos a descobrir que ambos éramos apaixonados por livros, e que tínhamos muitos sonhos,
E que numa qualquer madrugada, quando a minha pele se vestia na pele dela,
E descobri, que aquela mulher que eu tinha nos braços
Foi a mesma que muitos anos antes,
Me tinha atirado com uma pedra e me tinha rachado a cabeça.
Perdoei-lhe aquele acto da sua infância, e quando acordamos,
Já era noite novamente.
E um rio se despedia de um corpo.
Às vezes era o comboio que se sentava no meu colo, às vezes era uma cidade vestida de negro, sempre cabisbaixa, sempre uma folha de alumínio reluzindo-lhe nos dedos, capaz de subir à montanha e desenhar um rio na senhora da dos prazeres.
Sempre a água, sempre a noite
Quando ele,
Já nem sabia se era noite
Ou se era dia.
E um dia, farto do dia, farto da noite quase dia e do dia, quase noite
Vestiram-no, e partiu.
Sem antes se ter despedido de mim.
E eu detesto que se despeçam de mim. Detesto.
Mas ele, fê-lo. E ela também, também se despediu de mim.
Quanto a mim, não faço intensão de me despedir de quem quer que seja,
Mesmo que seja o vento.
Li há pouco que mais uma palavra foi assassinada esta tarde. Mas isto de assassinar palavras não tem fim?
Também que uma vírgula foi atropelada junto à estação de metro de superfície sem que ainda não se tenha dado conta de que: de superfície nada tem.
E tal como vocês querem que eu me foda, sinceramente, também eu quero que vocês se fodam.
Que eu não ganho dinheiro com o que escrevo, e tão pouco me importa, que não entendo porque vêm à merda deste blog todos os dias a qualquer hora.
Não sou poeta, sou apenas um gajo que fumou muitas coisas na vida, isto é: gramas.
É quase novamente noite, é quase uma roda dentada, a primeira lágrima da lua, é quase gente, muita mentira
Naquele dia acordou acreditando que o sol era apenas mais uma mentira, como tantas outras, dia após dia,
As melhoras para o Santo Padre que é ainda o único gajo que se aproveita neste planeta.
O copo de uísque dorme docemente na minha sombra, peço-lhe um beijo, ela dá-me dois, há um relógio que não é mais um relógio, foi em tempos um relógio
Hoje é uma revista pornográfica que se passeia pelas ruas da aldeia, de máquina fotográfica ao ombro,
E entre os dedos,
Um apito,
Um uivo, o gemido da voz contra o sémen da noite, dois corpos em tesão, dois dedos na vagina, e mesmo assim
Ainda há quem diga que a melhor coisa do mundo não é: foder.
Para o senhor Álvaro de Campos, que não há coisa melhor no mundo, do que
Comer chocolates; come chocolates, pequena, come chocolates…
E o senhor Álvaro de Campos que se foda também,
Porque a melhor coisa do mundo
É foder e é ser fodido também.
Uma lágrima diz adeus ao carrossel. O sexo anal escondido junto ao chafariz da aldeia, do outro lado do mar, outro sexo, outra morada, o defecar
De um beijo
Na rua acabada de morrer.
É quase meio-dia, o que é o almoço?
Hoje meu querido vais comer poesia.
É quase tudo uma merda, no entanto, deus que criou o mundo e a beleza, também criou a merda
E também criou a estupidez e a burrice.
E se um dia eu conseguir acordar, será noite desde Janeiro do ano anterior.
Uma mágoa. A serpente dentro do corpo, o fogo cansaço de uma noite de circo, a plateia aplaude e a lua é a maior das putas de todas as putas da noite.
Irão dizer: o gajo passou-se.
O gajo ficou maluco.
O gajo pirou da mioleira.
Depois.
Um dia.
Noite.
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