13 fevereiro 2025

Morre numa tarde junto ao rio…

Os meus nomes. A numeração complexa que se alicerça ao corpo que vagueia e transporto, sobre um pedaço de mar, quase silêncio, quase também um nome, como o meu.

Tirando isso, ele nunca soube o nome exacto do sexto sentido, junto ao cemitério, e do outro lado da rua

A minha sepultura. O cansaço, as árvores sobre uma lápide transparente, o sítio onde se esconde

A lareira.

A lua está linda, está. Pois

Olha

Diz

Amanhã é sexta,

É,

É sexta.

Sobre o mar, o corpo quase espuma, quase vagina e no entanto,

Olhe desculpe, mas eu não sei o nome deste jardim,

Que deixe lá, o que interessa o nome deste jardim, o que interessa, diga-o lá

Não serão mais importantes as flores deste jardim do que o nome deste jardim?

E mesmo assim, ele semeia flores, depois do jantar, pela calada da noite.

Verteu-se de águas junto ao meu jazigo. Depois, sentou-se sobre mim, e puxou por dois cigarros; um para ele, outro

Fumas pá?

Claro que sim, claro

Que há muito eu não fumava, nem fodia, nem lia, nem dormia

Ou acordava, apenas

Aqui jazia.

Fiz-me à estrada, sapatos pendurados nos ombros, na algibeira, quase nada, ou quem diria,

Quase tudo.

Essa é que é essa. Eu tinha tudo. Tenho, tudo.

Mesmo o jazigo não sendo muito arranjadinho, eu não me importo, pois sei que mais ninguém

Aqui virá parar, ao meu lado, ou sobre mim.

Que sim. Muito bem, senhor Francisco

Mais uma vez, um nome.

O que importa o meu nome. Querem o meu nome,

Ou querem apenas e só, as minhas flores?

E flores são estrelas, e as estrelas, nomes

E os nomes,

Objectos e corpos e o vácuo, depois do almoço, junto à ponte. Sorriam, sorriam

Porque eles,

Eles detestam sorrisos.

Se uma lágrima acordar, logo em seguida, mil lágrimas virão ao velório da lágrima que há pouco,

Acordou, no rosto de um ausente.

Ele e ela, mentem.

No entanto,

Eu e ele, fumávamos, um charro de solidão na companhia de um copo, um porto de origem, entre as coxas da madrugada,

E a vagina socalco,

Da alegria.

Então diz-me lá o que tens feito?

Lá.

Lá?

Sim pá, lá.

E de lá em lá, quem diria

Quem diria que aquele gajo,

O conseguia.

Quem o diria, verem-me debaixo de uma pedra, sentado à cabeceira do meu pai, coitadinho,

Que já cá não anda, amanhã serei eu, que deixo de andar, depois de amanhã

O meu filho, numa outra tarde

Sobre um baloiço, quase água, quase desejo…

Quase, culpa.

A cidade é uma merda, mas eu gostava, e havia sempre o tecto de um compartimento, que descia, descia

Sobre mim, e sobre nós,

Até ficarmos do tamanho de uma formiga, depois

Dávamos as mãos

E cantávamos.

E parece que Deus gostava de nós.

E lá,

Mais um nome, menos uma vida, uma janela que sente o sorriso do vento, do vento

Desculpe, porquê?

Porque o sente, porque o vinte e oito era covarde, e só às vezes acordava após o jardim,

Nos restantes dias,

Dormia,

Dormia trinta horas por dia.

No cemitério, muitos nomes, nomes de coisas e de relógios de pulso tão cansados como são cansadas as manhãs do pequeno-almoço, como são cansadas as lágrimas de um pequeno cubo de fumo, depois

Ergue-se, veste-se

E morre.

Morre numa tarde junto ao rio…


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