Em pouca água fervem os olhos, depois da chuva não restará nada, e tínhamos um barco de estimação, era de brincar, mas tinha assentos pincelados de estrelas, e à noite
Havia sempre noite.
E havia sempre estrelas. E havia sempre dia, e sempre mar, e havia,
Depois deixou de haver,
Paz,
E havia sempre uma mangueira que me olhava, e havia sempre uma mangueira, que me abraçava
Nem que não fosse,
A mangueira da minha mãe.
E havia um papagaio em papel que brincava com um menino, e havia sempre um boneco, amigo do menino
E havia o chapelhudo, o amigo do menino, o boneco do menino,
Depois veio a ausência, o zinco começou a chover, o capim, esse
Sempre a chorar,
Depois vinha a chuva
E era tanta, era tanta a chuva
Que eu me escondia, dentro do dia.
E havia também um triciclo, quase sempre estava cansado, e durante a noite
Passeava o chapelhudo pelo quintal. Aqui e ali, no passeio, ou uma folha caída de uma das mangueiras,
Ou uma manga, quase cadáver na tarde antes do pôr-do-sol.
E também havia um candeeiro a petróleo, que nem o menino e nem o chapelhudo conheceram, porque havia um triciclo que subia mangueira acima, procurava uma sombra
Cá por baixo,
Estamos todos bem pela graça de deus nosso senhor, respiramos, depois
Vinha a chuva, ele erguia-se da terra quase queimada pela saudade, pegava na espingarda
E divertia-se a atirar contra os mabecos.
Havia gritos, havia catanas que cortavam pescoços, e pescoços de adorno que pareciam catanas.
Sobre o rio, uma ponte:
Atravesso, não atravesso, deito-me à água. Agora percebo.
O destino, o mesmo destino
Quando acordou,
Estava sentado no Congo Belga.
E também tivemos uma comadre que ao domingo nos oferecia bananas, que o compadre às vezes dormia na cama da filha do seu irmão, tiveram filhos, penso que foram felizes como são felizes todos os amores proibidos,
Estava sentado do outro lado do rio, era sempre noite, o chapelhudo tinha quase um chisco no olho, e era tão quase
Que do triciclo já se ouviam as motorizadas no poço da morte.
O miúdo ficava horas a olhar as motorizadas a desenharem círculos numa tarde de quase perfeita chuva,
Estava sempre calor, sempre havia
Dentro de uma poça de água,
Um barco, uma enxada, uma pedra, ou
Ou um verme do meu tamanho. E eu sentava-me no colo dela, ela
Ela dizia que eu era o mais lindo palhaço do circo, eu tinha cinco anos e ela,
Cinco anos tinha. E em dez anos, somando os meus cinco anos aos cinco anos dela,
E havia também uma árvore tão grande, tão grande
Que chegava ao céu;
Não acredito!
Verdade!
Depois,
A chuva, quase na tonalidade de um beijo, agora sobre uma árvore, vestido de branco, o silêncio
Ao longe,
Um uivo, floresta adentro, uma locomotiva enfeitada com muitas luzes, um livro que se deita sobre a cama,
Um pequeno papel, que acaba de acordar,
E, no entanto,
Havia vários caixotes, uma seta a apontar para o céu,
E eu acreditava que a seta era para quando pegassem no caixote
Velharias, livros, fotografias, gajas nuas,
Dentro de revistas,
Uma pistola, e havia o ruido da sombra a subir à montanhas, e havia um avião quase sempre na tarde
Que atrapalhava a sesta do menino, e do chapelhudo.
Havia também a Nikita do Elton John e hoje continua a haver muros, cada vez mais muros,
Ele,
Ele quando acordou, ao outro dia, tinha atravessado o rio Congo,
Hoje, hoje muros por todos os lados,
Quando pegassem no caixote, todos tínhamos a certeza que deus estava muito bem sentado e na devida posição.
E não estava. Que nunca esteve, que até dizem
Que nunca o viu,
E mesmo assim, afirmou a pés juntos e jurou por aqueles que já não nos fazem falta alguma, porque cá já não estão
Que nunca,
Nunca senhor professor vez alguma eu roubei uma flor que seja do seu jardim…
Malandreco!
Seu maroto, e sempre que havia um chapelhudo de trombas, logo em seguida,
Um menino com trombas,
E logo a seguir,
Um triciclo, sentado nas trombas; de um boneco e de um menino.
Havia os dias, e tínhamos também muitos. Que eram mais do que dois dias, sob o azul céu de uma manhã de domingo, quase mangueira, ele também e que gritava
É um menino. E que seja então também embondeiro, e que seja também musseque, algazarra, as chuvas torrenciais, os sinos não tocaram mais, hoje ouvem-se as almas acorrentadas às sombras que apenas a noite
E ela vestia-se de mangueira, pegava-lhe na mão
E dava-lhe um beijo.
Ele, ele ficava a olhar o céu.
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