12 dezembro 2024

Foi este o meu corpo quase palavra

Foi este o meu corpo quase palavra 

se a água vida quase noite 

quase também uma fotografia das nuvens na saliva do desconhecido vento. 


Foi este o meu olhar quase a desaparecer no sofá 

foi este pequeno barco que a sonolência deixou sobre a mesa junto aos talheres 

e foi este mar que pariu o rio no dilúvio da solidão. 


Foi este cachimbo que espetou a lua no meu peito 

quando o livro ainda uma criança 

que brinca no escorrega da tarde 

foi este o dia da chuva que estava no inferno... 


Foi este rio que escreve no silêncio 

o triângulo rectângulo na mão do cateto 

e nos lábios da hipotenusa 

dentro de um caderno quadriculado. 


Foi este o meu corpo quase palavra 

às vezes quase nada 

foi esta a madrugada quase bala 

na sombra de uma árvore. 


Foi esta a bandeira hasteada no sorriso do sol 

depois de uma pedra sendo degolada na espuma da cama 

foi esta a tua mão quase toda uma lareira... 

no objecto quase sábado. 


Foi este pequeno carguinho descalço que eu desenhei na ardósia estrela do meu coração. 

foi neste pedaço de vidro 

onde escrevi o teu nome: Cristina. 


Foi neste labirinto papel 

onde o teu corpo nu uma cidade portuária rompendo o meu destino...


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