08 dezembro 2024

Éramos dois anéis de luz sobrepostos na antiga solidão que sempre ouvíamos ao nascer do sol

Éramos dois anéis de luz sobrepostos na antiga solidão

que sempre ouvíamos ao nascer do sol

a aldeia parecia o dia da minha primeira comunhão, nem sei descrever

como foi; mas foi muito triste.


A tua mão escondia mil paisagens, mil beijos que trazias nos seios,

e eu quando queria, voava sobre a aldeia, olhava os campos retalhados em mil pedacinhos, quase todos

semeado o milho neles.


O loiro, que às vezes se vestia de noite e que dias depois era encontrado na morgue de um qualquer centro de depósito para cadáveres,

dava lugar ao vagar silêncio até que ganhava coragem e saltava da ponte, sem antes gritar

- Amo-te Antónia

E adianta bem gritares pela Antónia, se ele

daqui a pouco é apenas massa tenra e saudades dele que alguém no futuro terá; talvez um filho.

Quanto a mim, nem isso tenho.


E mesmo assim éramos dois anéis de luz sobrepostos na antiga solidão

que sempre ouvíamos ao nascer do sol,

a cidade morre no encontro e no desencontro de dois corpos em prefeito estado de tesão, o vento solta-lhes o cabelo, erguem-se os dois sobre a neblina do teu olhar, ambos, os dois anéis e o dois corpos, uma nuvem de esperma à procura da noite.


Bashar caiu e que deus o leve e que devia ser fuzilado em paga de tos aqueles que morreram às suas mãos,

as crianças, incomoda-me o sofrimento de uma criança. 

O pior é se quem vem a seguir é muito pior do que este cabrão…


E ainda hoje somos dois anéis de luz, lua nas mamas do teu cabelo, desalentado o menino quando descobriu que a lua é uma aldeia pequenina com mil pedacinhos de terra semeada com milho e lágrimas dos

éramos dois pedaços de luz,


dois anéis circunflexos e desconfiados do primeiro trimestre da rua sem saída, 

e hoje somos dois livros nas mãos de um pássaro… 


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