Éramos dois anéis de luz sobrepostos na antiga solidão
que sempre ouvíamos ao nascer do sol
a aldeia parecia o dia da minha primeira comunhão, nem sei descrever
como foi; mas foi muito triste.
A tua mão escondia mil paisagens, mil beijos que trazias nos seios,
e eu quando queria, voava sobre a aldeia, olhava os campos retalhados em mil pedacinhos, quase todos
semeado o milho neles.
O loiro, que às vezes se vestia de noite e que dias depois era encontrado na morgue de um qualquer centro de depósito para cadáveres,
dava lugar ao vagar silêncio até que ganhava coragem e saltava da ponte, sem antes gritar
- Amo-te Antónia
E adianta bem gritares pela Antónia, se ele
daqui a pouco é apenas massa tenra e saudades dele que alguém no futuro terá; talvez um filho.
Quanto a mim, nem isso tenho.
E mesmo assim éramos dois anéis de luz sobrepostos na antiga solidão
que sempre ouvíamos ao nascer do sol,
a cidade morre no encontro e no desencontro de dois corpos em prefeito estado de tesão, o vento solta-lhes o cabelo, erguem-se os dois sobre a neblina do teu olhar, ambos, os dois anéis e o dois corpos, uma nuvem de esperma à procura da noite.
Bashar caiu e que deus o leve e que devia ser fuzilado em paga de tos aqueles que morreram às suas mãos,
as crianças, incomoda-me o sofrimento de uma criança.
O pior é se quem vem a seguir é muito pior do que este cabrão…
E ainda hoje somos dois anéis de luz, lua nas mamas do teu cabelo, desalentado o menino quando descobriu que a lua é uma aldeia pequenina com mil pedacinhos de terra semeada com milho e lágrimas dos
éramos dois pedaços de luz,
dois anéis circunflexos e desconfiados do primeiro trimestre da rua sem saída,
e hoje somos dois livros nas mãos de um pássaro…
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