Leonor,
Diz António,
Parece que fomos convidados para participarmos num sarau de poesia,
Fomos?
Foste tu, eu não fui convidada para nada, e até acredito que tudo quilo o que escreves e tudo o que desenhas
São uma perda de tempo. Isso vai levar-te a onde? Diz-me António,
Para que passas tantas horas a ler, António?
Desculpa. Pensei que gostava de me acompanhar, só isso
Desculpa.
E sabes que mais?
Não sei, Leonor!
Tu só podes estar completamente louco para escreveres todas essas porcarias, não tenho outra explicação.
Não Leonor, não estou louco e tão pouco
Tu sabes lá o que é a loucura.
Louco, Leonor
Era o José, mais conhecido por queijeiro
Quando na realidade
Vendia vinho. Sim, vendeu queijo da serra, mas foi há tanto tempo,
Que o próprio tempo já esqueceu.
O Zé vendeu também televisores, telefonias e afins
Olha,
Os primeiros televisores que eu vi made in URSS,
Era o Zé que os vendia,
O Zé vendia,
Tanta coisa que ele fez e vendeu na vida, até droga
Vendeu.
Quando ele se concentrava, após muitos copos de vinho, utilizava a mente
E atravessava as paredes.
És muito parvo. Não acredito em nada disso.
Um dia o Zé estava numa tasca, do seu lado direito tinha uma parede que confrontava com uma dependência bancária, do seu lado esquerdo
Uma loja de fotografia.
Nós conversávamos sobre uma garota por quem eu estava apaixonado, e já na altura
A mania dos versinhos
Uma porcaria isto dos versinhos que me apareceu na vida e que só terminará quando eu morrer,
O Zé que eu
Ó pá, tu és inteligente, não tenhas receio de conversar com a miúda.
Olha que ela
Parece ser muito fixe
E fixe seria eu não estar sentado nesta mesa a ouvir este louco e a ficar também eu louco,
Vês, como estás louco?
Não sabes Leonor o que é loucura, o que é a paixão
E a cada trago de moscatel meu
O Zé
Imaginava bailarinas a dançarem sobre a mesa,
Eu que sim
Muito bem Zé, muito bem
E se ele ao menos soubesse o que é o amor.
O zé nunca casou. O Zé também não tinha filhos, pensávamos nós
Os amigos.
As bailarinas eram três. Lembro-me tão bem do rosto de cada uma delas,
Mas havia uma
Que me despertou o olhar, esfrego os olhos já muito dilatados devido à quantidade de livros que já tinha lido naquela noite,
Olhei-a de frente,
Ela parou de dançar por uns instantes,
Comecei a imaginá-la nua, solta
Sobre o mar dos meus lábios.
Ó António.
Diz lá Zé,
Pagas mais um copo e eu apenas com o olhar atravesso a parede,
Como?
Pagas e vês!
És maluco Zé. Pode lá ser isso possível.
Mas está bem, pede lá mais um tinto.
As sílabas dos textos que tinha lido horas antes começam a fazer efeito no meu corpo.
Sinto-me tonto, porra.
Puxei por um cigarro, esqueci por momentos a bailarina nua que me espera no umbral da ausência
E concentrei-me apenas e só no Zé.
Ele começa a esfregar as mãos, de vez em quando encerra as persianas do olhar
Respira fundo, e
Zé?
Deixei de ver o zé.
Tu queres ver que este gajo atravessa mesmo as paredes!
Porra, só me faltava esta. Fiquei aflito e procurei por toda a sala,
Zé? Ó Zé?
Nada. Nem uma migalha de sono se encontrava no chão.
Sentei-me. Comecei a ficar triste, enjoado
E eis que
À minha frente o Zé sentado.
Pisca-me o olho, abre a mão
Uma moeda de cinco escudos no tempo dos escudos
E das bailarinas que dançavam sobre as mesas.
Afinal é verdade Zé! Desculpa lá eu ter duvidado de ti. Às vezes,
Olha que eu só digo a verdade.
És muito parvo, António
Acreditares que,
Deixa lá Leonor
Deixa lá,
A partir de agora vou começar a sonhar em silêncio, olha
Como o Zé,
Coitado do Zé…
Antes de morrer passou os últimos seus dias a passear no jardim duas garrafas de oxigénio sobre um carrinho
Com rodas. Parecia uma criança
A puxar um camião de sonhos e de desejos.
Mas tu não acreditas mesmo em mim, Leonor!
Tu nunca acreditaste em mim.
Nem sei porque…
Então Zé, estás bem?
Estou pá, como vês
Passeio estas duas garrafas, fumo três ou quatro cigarros, e
Tu ainda fumas, Zé.
Eu controlo, António
Eu apenas com a mente…
Fui há casa de banho. Entro na sala
E nada. Nada do Zé.
Tu queres ver que este gajo…
Pensei, está bêbado e foi para casa contar estrelas no tecto da liberdade noite,
Indiferente sentei-me e dei mais uns tragos de moscatel.
Perco-me nos meus pensamentos. Imagino coisas sobre a mesa, às vezes
Até as tuas mãos de maresia madrugada, e oiço
Um estrondo do meu lado direito, esquerdo do Zé
Ou vice-versa,
Tanto faz meu amor,
Uma luz ergueu-se na parede, depois
Uma lágrima sai da parede e senta-se onde se sentava o Zé,
Zé, és tu porra?
Cala-te
Estou disfarçado.
Ah agora percebo
E a quem pertence esse retracto que trazes nos lábios?
Não sei, António. Não sei.
Estava em cima do balcão.
Assim António, acredita
Vais acabar os teus dias a dormir na rua,
Como tantos,
Assim, António
Assim não dá.
Não te preocupes Leonor,
Não te preocupes.
Talvez eu encontre o mar da minha vida!
Quem sabe, Leonor?
Quem o sabe!
Talvez Deus.
Talvez.
(ficção)
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