14 novembro 2024

Empurra pai

O tecto em erecções constantes, ora para cima,

Para o lado esquerdo,

Para baixo

Novamente para cima e novamente

Para baixo

O Abílio procurava as cuecas no amontoado de roupa que ainda respirava, mas que às vezes

Desfalecia a roupa, as cuecas e talvez o avental que serviria para mais logo,

Confeccionar o jantar.

Nunca vês nada tu santa paciência,

Rendadas não rendadas calças, calças meias coloridas não coloridas,

Gostas das minhas meias? 

Adoro, principalmente a cor

O Abílio era daltónico, para ele tanto fazia que fosse noite, que fosse dia, que fosse Inverno,

Ou Verão, de inferno.

Para ele

Ao longe um baloiço brincava com uma criança, outra criança

Procura a sombra do baloiço, não sei que dia é hoje

Quinta-feira parvo dia catorze do mês dos finados,

Tu não sabias porque me procuravas, eu

Eu procurava apenas um sorriso que iluminasse a noite,

Era Verão e a tua pele parecia um rio sonolento descendo a montanha em direcção ao rio,

Cada gotícula, um pequeno poro em desejo

Uma pedra é lançada sobre a aldeia, sobre nada. Sabes?

Era melhor não nos encontrarmos mais neste cubículo de um terceiro andar que ruge a cada gemido teu, que tem mais fendas nas paredes do que

Furos de bala tinha o gajo da pastelaria que foi assassinado pelo tempo,

E pior do que isso

Esse maldito crucifixo que nos olha a cada suspiro.

Queres ir para onde, para tua casa?

Não percebeste parvalhão, depois o baloiço quando viu o menino à procura da sua sombra, dou-lhe a mão, afagou-lhe o cabelo,

O menino sorriu, eu quero dizer nunca mais estarmos juntos, percebes?

Que sim, respondia o menino depois do baloiço lhe ter desenhado no rosto o silêncio mais giro da aldeia,

Que giro!

The end, Abílio

O outro menino aproxima-se, devagarinho, poisa o dedinho da mão direita sobre o ombro do outro menino, o outro menino com o silenciado cabelo ao vento,

Olá, eu sou o Ricardo

Eu sou o Alfredo,

O baloiço já cansado de tanto baloiçar,

O tecto subia,

O tecto descia,

Um navio de espuma sobe as escadas, e sem ter a educação de bater à porta

Quarto adentro, sobre a cama, outro baloiço sem que até aquele momento soubesse,

Que também era um baloiço, que também

E, no entanto,

Subia,

Descia,

Uma pomba em sentinela junto ao vidro da janela, ao fundo da rua,

A igreja,

Mulheres e homens rezavam,

Imploravam,

Que naquele pequeno jardim onde havia um baloiço

Houvesse,

Porque um só é sinal de solidão, outro baloiço

Já viste António?

Não sei o que vi e acredita que tudo o que vi

The end.

Percebeste parvalhão? Isto não tem pernas para andar…

Não é isso carago,

Temos de encontrar outro baloiço para fazer companhia ao baloiço do jardim,

Tu é que sabes,

Se The end

Ou não end

Tanto faz, 

O tecto parou sobre uma mesa raquítica e à qual faltava uma perna, uma bola desce da árvore e de encontro ao baloiço

Pai empurra-me,

E para cima.

E para baixo,

O tecto cada vez mais invisível, estando o teu corpo ainda nu e mergulhado numa maresia de esperma, quase fumegante

O cigarro sobre a mesa, a mesa descendo a avenida, virava à esquerda,

Empurra pai

E ele empurrava o tecto no sentido ascendente, empurra pai, 

Puxou de um cigarro, durante dez segundo enganou o fumo, e este

Procurando a saída do meu labirinto peito,

Pensava ele,

Reflectia que a cada meia-hora um jesuíta é comido. 

Vê lá António, vê lá…

Já viste o Abílio?

Não hoje ainda não o vi porquê? E que raio tenho eu a ver com esse tal de Abílio?

Amo-o, António!

O açúcar caramelizado, que apenas um jesuíta sabe ter, depois

Lançou o cigarro para o beco, fechou a janela, ainda pensou fazer com que o tecto voltasse à posição inicial, mas depois,

Que se lixe.

Adeus Ernestina. As escadas já adivinhavam que pé o Abilio poisaria primeiro, às vezes

Pára no silêncio de um vão de escada com acesso a uma cama, apesar de não poder utilizar as mãos

A uma cadeira, e um crucifixo que se masturba

A lençóis mergulhados na imensidão de cada gemido, de cada tesão

Porquê Claudia? Porquê?

Porque o amo, muito, António. Muito. Percebes?

Eu até percebo porque cagam sempre sobre mim, os pássaros

A pomba também em lágrimas,

Fechei a porta, desci apressadamente as escadas, poiso a chave sobre uma coisa que parecia uma mesa,

Mas não uma mesa,

Um baloiço perdido na aldeia, uma mão nas tuas coxas até sentir nos teus lábios a razão do poema ser o mais belo

Dos belos, amanheceres,

E mesmo assim,

Não percebes António que eu o amo!

E ele ama-te?

Empurra pai

Empurra,

E o tecto subia.

O tecto descia,

Até chegar ao chão.


(ficção)


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