05 novembro 2024

As acácias

Lamento, mas não lhe recomendo sabendo vossa excelência que vossemecê nunca se dignou em me explicar,

Porque choravam as acácias da sua infância; e mesmo assim, vossemecê cresceu louco, fez-se louco quando viu pela primeira vez

Os seios de uma preta. E mais, vossemecê acreditava que um dia, um dia muito mais além,

Alguém,

Alguém lhe dissesse,

Porque choravam as acácias da sua infância.

E no entanto

Hoje está vossemecê de rastos, completamente desiludo,

Ao descobrir que as acácias da sua infância,

Nunca,

Nunca choraram.

Elas apenas tinham lágrimas na penumbra da manhã. E se uma flor um dia lhe der um beijo,

Duvide, sempre.

Pode ser uma abelha, que é incomoda para a gente, que gostam mais de flores,

E de espetar,

No meu braço,

O veneno da saudade. 

Eu sei que vossemecê, às vezes, em frente ao espelho

Pergunta ao espelho;

Pai, porque choravam as acácias da minha infância! E vossemecê, sim

Vossemecê fica triste,

Porque ninguém lhe responde.

Hoje descobri que nunca existiram acácias, hoje descobri, que as acácias da minha infância,

Nunca,

Nunca choraram. E já começo a duvidar se algum dia existiram mesmo

Acácias,

Na minha infância. Mas elas tinham lágrimas,

Sim; eu vi com os olhos de criança que era.

E já não sei, se alguma vez vi uma cubata mergulhada no silêncio capim,

E ao longe,

Um musseque de engano descobria a paixão. O rio corria, corria…

E o musseque enrolava-se no dorso da primeira espingarda, acordada.

Eu também não sabia, não sabia e foi tudo mentira

Nem o meu avô nunca, nunca na puta da vida dele andou a passear machimbombos pelas ruas de Luanda, foi tudo

Foi tudo mentira. Foi tudo inventado,

Nem eu nunca estive empoleirado no portão do quintal,

À espera dele. Mais uma mentira, que me fizeram acreditar

Pode lá ser, ele era uma criança.

Foi tudo mentira, 

E a minha mãe nunca fez papagaios em papel,

Que desenhavam beijos,

No céu da tarde. 

Tão pouco sei onde fica Angola, ou Luanda.

Foi tudo,

Tudo mentira.

Lamento, meu senhor.