Lamento, mas não lhe recomendo sabendo vossa excelência que vossemecê nunca se dignou em me explicar,
Porque choravam as acácias da sua infância; e mesmo assim, vossemecê cresceu louco, fez-se louco quando viu pela primeira vez
Os seios de uma preta. E mais, vossemecê acreditava que um dia, um dia muito mais além,
Alguém,
Alguém lhe dissesse,
Porque choravam as acácias da sua infância.
E no entanto
Hoje está vossemecê de rastos, completamente desiludo,
Ao descobrir que as acácias da sua infância,
Nunca,
Nunca choraram.
Elas apenas tinham lágrimas na penumbra da manhã. E se uma flor um dia lhe der um beijo,
Duvide, sempre.
Pode ser uma abelha, que é incomoda para a gente, que gostam mais de flores,
E de espetar,
No meu braço,
O veneno da saudade.
Eu sei que vossemecê, às vezes, em frente ao espelho
Pergunta ao espelho;
Pai, porque choravam as acácias da minha infância! E vossemecê, sim
Vossemecê fica triste,
Porque ninguém lhe responde.
Hoje descobri que nunca existiram acácias, hoje descobri, que as acácias da minha infância,
Nunca,
Nunca choraram. E já começo a duvidar se algum dia existiram mesmo
Acácias,
Na minha infância. Mas elas tinham lágrimas,
Sim; eu vi com os olhos de criança que era.
E já não sei, se alguma vez vi uma cubata mergulhada no silêncio capim,
E ao longe,
Um musseque de engano descobria a paixão. O rio corria, corria…
E o musseque enrolava-se no dorso da primeira espingarda, acordada.
Eu também não sabia, não sabia e foi tudo mentira
Nem o meu avô nunca, nunca na puta da vida dele andou a passear machimbombos pelas ruas de Luanda, foi tudo
Foi tudo mentira. Foi tudo inventado,
Nem eu nunca estive empoleirado no portão do quintal,
À espera dele. Mais uma mentira, que me fizeram acreditar
Pode lá ser, ele era uma criança.
Foi tudo mentira,
E a minha mãe nunca fez papagaios em papel,
Que desenhavam beijos,
No céu da tarde.
Tão pouco sei onde fica Angola, ou Luanda.
Foi tudo,
Tudo mentira.
Lamento, meu senhor.