Percebíamos que a nossa
vida era um imaginário baloiço
sobre o mar de esplanadas
com lábios de silêncio mergulhados em nadas...
percebíamos que da janela
víamos os cadáveres esqueléticos das murchas flores de sémen
e havia no pátio restas
lágrimas de luz com sabor a saliva ensanguentada
percebíamos que o amor
éramos nós disfarçados de velhos esqueletos
com cristais silábicos
pigmentados nas loucas chaminés ao longe olhando-nos
sentados sobre a cidade
dos sonhos... percebíamos que o desejo
aparecia nas clarabóias
dos sótãos onde se escondiam os amantes do Planeta vermelho,
Percebíamos que éramos
nós quando o guarda-fato ressonava nocturnamente
como abelhas dentro de
uma colmeia vagueando sobre os sorrisos da perdiz desnorteada
perdida na montanha
descia-se até ao rio
e um afogado homem
vestido de medo deitava a cabeça no teu colo de xisto
ouvíamos um leve suspiro
um finíssimo gemido com
sabor a Primavera
percebíamos que éramos
nós
porque quando nos
tocávamos
porque quando nos
beijávamos
os odores das estrelas
estrábicas caíam sobre as searas verdejantes dos olhos de prata
carícias minguadas sobre
os teus cabelos de maré criança
menina dos Domingos que o
calendário absorve como insónias de papel,
E agora, meu amor por
descobrir?
que farei quando abrir a
porta da noite
entrar em ti sabendo que
não entendes a minha presença e a minha sombra
correm em cigarros
invisíveis os sofrimentos das árvores dos pássaros negros...
percebíamos que hoje
éramos duas vozes que o rio há muito engoliu
e sobrevivemos a olhar os
baloiços dos versos saltitando no quintal dos livros apaixonados
como nós
percebíamos... meu amor
por descobrir... que o Planeta Vermelho éramos nós.
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