27 outubro 2024

O Tejo

 

Aqui sinto o esfriar da maré,

 

Sentava-se junto ao rio a contemplar as gaivotas, às vezes distraia-se e acordava do outro lado da penumbra, no caderninho que sempre trazia no bolso, algumas notas que semeava,

Para talvez um dia,

As pudesse ler. Chegou esse dia. De cada página do caderninho acordam os finais de tarde junto ao Tejo. Há pouco bateram-me à porta, fingi não estar, como sempre

Finjo não estar.

Parece que nunca estive dentro daquelas coxas inventando silêncios de esperma, quando acordávamos

Apenas uma lâmina de sémen sobre a clareira do abismo. Mas estive lá. Parece que um dia ele apaixonou-se por uma trapezista,

E eu voava nos seios mais belos daquela Primavera que se adensava dentro do espigueiro de Carvalhais,

Abria a janela, um grande campo de milho absorvia-me, eu bebia compulsivamente e fumava

Loucamente,

O meu avô acreditava que eu, durante a noite, saltava a janela de sentava-me junto ao espantalho; confesso que o fiz,

Algumas vezes. Conversávamos.

Meio a cambalear,

Sentar-me junto ao espantalho avô? O que anda a fumar nos últimos dias…?

Ele ria-se.

Eu chorava. Sabia que era o último ano que beberia e fumaria coisas à janela daquele quarto

Que toda a gente dizia,

O quarto do meio.

O meu avô,

O quarto do Luizinho. Pois claro.

Aqui sinto o esfriar da maré, o levante do marinheiro quase que dorme, quase que habita

No meu peito. Trazia-me sempre que regressava um livro, eu adorava livros, como hoje, talvez

Quando repentinamente um grande milagre de espuma caiu sobre o mar,

Traziam o rapazote de África acreditando que ele, um dia,

Dormiria sobre as ardósias cinzentas do sono. Nunca quis um gato. Constipava-se a miúdo,

E nunca acreditou no pai natal.

Era sábado. O primeiro petroleiro a passar a barra acenou-me, eu acenei-lhe e enviei-lhe beijos, as noites tinham deixado de ter nome, e eu

Quase que não me chamo de coisa alguma, quando do outro lado da rua,

As tramites habituais do despojo

E do nojo,

Acreditar ser poeta. Eu não acredito.

Odiava que um dia passassem por mim,

E

Bom dia senhor poeta. Confesso. Odeio.

Sentava-se junto ao rio a contemplar as gaivotas, e nunca teve a coragem de caminhar sobre as águas do Tejo…

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