Aqui sinto o esfriar da
maré,
Sentava-se junto ao rio a
contemplar as gaivotas, às vezes distraia-se e acordava do outro lado da
penumbra, no caderninho que sempre trazia no bolso, algumas notas que semeava,
Para talvez um dia,
As pudesse ler. Chegou esse
dia. De cada página do caderninho acordam os finais de tarde junto ao Tejo. Há pouco
bateram-me à porta, fingi não estar, como sempre
Finjo não estar.
Parece que nunca estive
dentro daquelas coxas inventando silêncios de esperma, quando acordávamos
Apenas uma lâmina de sémen
sobre a clareira do abismo. Mas estive lá. Parece que um dia ele apaixonou-se
por uma trapezista,
E eu voava nos seios mais
belos daquela Primavera que se adensava dentro do espigueiro de Carvalhais,
Abria a janela, um grande
campo de milho absorvia-me, eu bebia compulsivamente e fumava
Loucamente,
O meu avô acreditava que
eu, durante a noite, saltava a janela de sentava-me junto ao espantalho;
confesso que o fiz,
Algumas vezes. Conversávamos.
Meio a cambalear,
Sentar-me junto ao
espantalho avô? O que anda a fumar nos últimos dias…?
Ele ria-se.
Eu chorava. Sabia que era
o último ano que beberia e fumaria coisas à janela daquele quarto
Que toda a gente dizia,
O quarto do meio.
O meu avô,
O quarto do Luizinho. Pois
claro.
Aqui sinto o esfriar da
maré, o levante do marinheiro quase que dorme, quase que habita
No meu peito. Trazia-me
sempre que regressava um livro, eu adorava livros, como hoje, talvez
Quando repentinamente um
grande milagre de espuma caiu sobre o mar,
Traziam o rapazote de
África acreditando que ele, um dia,
Dormiria sobre as ardósias
cinzentas do sono. Nunca quis um gato. Constipava-se a miúdo,
E nunca acreditou no pai
natal.
Era sábado. O primeiro
petroleiro a passar a barra acenou-me, eu acenei-lhe e enviei-lhe beijos, as
noites tinham deixado de ter nome, e eu
Quase que não me chamo de
coisa alguma, quando do outro lado da rua,
As tramites habituais do
despojo
E do nojo,
Acreditar ser poeta. Eu não
acredito.
Odiava que um dia
passassem por mim,
E
Bom dia senhor poeta. Confesso.
Odeio.
Sentava-se junto ao rio a
contemplar as gaivotas, e nunca teve a coragem de caminhar sobre as águas do
Tejo…
Sem comentários:
Enviar um comentário