Descia a rua
transportando na algibeira dos calções os olhos do mar, ele
Ele sonhava um dia voar
sobre o capim sonolento de uma infância recheada de alegrias, que de quando em
vez
A mãe,
Oferecia-lhe um papagaio
em papel. Tinha muitas cores, como muitas cores têm os teus olhos. Acreditava,
acreditava que um dia, acreditava que um dia todos aqueles rabiscos deixados
nas paredes do quarto,
Tivessem vida. Amassem.
Descia a rua com o sorriso
envenenado pela chuva miudinha de Agosto, o sol às vezes escondia-se como se
escondem hoje,
Todas as pessoas.
Vivemos num esconderijo,
cada qual e cada um se esconde, vivemos escondidos de uma multidão fantasiada
de espasmos e lazeres,
Depois,
O veneno. A morte.
O vento iluminava-lhe o
cabelo encaracolado e loiro, hoje ele tem cabelo branco e espetado numa noite
de Inverno.
Eu tinha o cabelo
comprido, loiro e encaracolado, mas o parvalhão do meu pai, um dia, um dia
levou-me ao barbeiro e pregou-me com uma carecada,
Confrontado,
Respondeu à minha mãe que
o menino parecia um maricas….
Um maricas, eu.
Descia a rua acreditando
que acreditava em tudo, mesmo sabendo que lhe mentiam, ele acreditava que não
lhe mentiam,
Hoje mentem-lhe,
E ele acredita que
Não lhe mentem. Descia a
rua mais sonolento de que a noite sabia, e hoje a noite sabe tudo a seu
respeito,
Um dia voará e do cimo de
um prédio se lançará ao mar,
Depois sabíamos que mais
tarde ou mais cedo, a separação era evidente, porquê mentir,
Se aquele menino que
descia a rua sempre que acredita,
É confrontado com a
tristeza de viver,
Fingindo,
Morrendo em pedaços como
o vento depois de se alicerçar às montanhas da paixão.
Que sabem os leitores de
paixão?
Talvez saibam mais sobre
Cristinas Ferreiras e afins limitada, decimo terceiro esquerdo, entra-se e ao
fundo do corredor o porto de mar, depois
As garras das suas mãos
pareciam um guindaste cancelando portagens num qualquer cinema ao ar livre,
Eu sentia-me feliz, muito
Quando descia a rua dentro
de uns calções de pano, sentia-me um longínquo menino à procura de sonhos, e
fumei heroína acreditando hoje
Que procurava esses mesmos
sonhos.
Quase morri, e sonhos
Não os vi.
Descia a rua acreditando
que se subisse as treze escadas em madeira,
Tinha os braços da
Primavera para me emparar,
Depois de uma noite de
enganos, porque toda a minha vida foi um grande engano,
Começando com o meu
nascimento. Nasci em Janeiro num principio de manhã alimentada pelo sorriso do
sol, começava a ficar calor
Abri os olhos, e nunca
tinha visto em toda a minha vida, que já vai longa, mulher tão linda, como
aquela que me olhava
Era a minha mãe.
Descia a rua acreditando
que não voltava mais aos teus braços, mas logo que chegava a casa
Queria estar novamente
nos teus braços. Acreditava
Quando descia a rua
Descia a rua
transportando na algibeira dos calções os olhos do mar, ele
Ele só queria voar sobre
os teus olhos de mar!
Conseguirá o menino voar?
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