27 outubro 2024

Voar sobre os teus olhos de mar

 

Descia a rua transportando na algibeira dos calções os olhos do mar, ele

Ele sonhava um dia voar sobre o capim sonolento de uma infância recheada de alegrias, que de quando em vez

A mãe,

Oferecia-lhe um papagaio em papel. Tinha muitas cores, como muitas cores têm os teus olhos. Acreditava, acreditava que um dia, acreditava que um dia todos aqueles rabiscos deixados nas paredes do quarto,

Tivessem vida. Amassem.

Descia a rua com o sorriso envenenado pela chuva miudinha de Agosto, o sol às vezes escondia-se como se escondem hoje,

Todas as pessoas.

Vivemos num esconderijo, cada qual e cada um se esconde, vivemos escondidos de uma multidão fantasiada de espasmos e lazeres,

Depois,

O veneno. A morte.

O vento iluminava-lhe o cabelo encaracolado e loiro, hoje ele tem cabelo branco e espetado numa noite de Inverno.

Eu tinha o cabelo comprido, loiro e encaracolado, mas o parvalhão do meu pai, um dia, um dia levou-me ao barbeiro e pregou-me com uma carecada,

Confrontado,

Respondeu à minha mãe que o menino parecia um maricas….

Um maricas, eu.

Descia a rua acreditando que acreditava em tudo, mesmo sabendo que lhe mentiam, ele acreditava que não lhe mentiam,

Hoje mentem-lhe,

E ele acredita que

Não lhe mentem. Descia a rua mais sonolento de que a noite sabia, e hoje a noite sabe tudo a seu respeito,

Um dia voará e do cimo de um prédio se lançará ao mar,

Depois sabíamos que mais tarde ou mais cedo, a separação era evidente, porquê mentir,

Se aquele menino que descia a rua sempre que acredita,

É confrontado com a tristeza de viver,

Fingindo,

Morrendo em pedaços como o vento depois de se alicerçar às montanhas da paixão.

Que sabem os leitores de paixão?

Talvez saibam mais sobre Cristinas Ferreiras e afins limitada, decimo terceiro esquerdo, entra-se e ao fundo do corredor o porto de mar, depois

As garras das suas mãos pareciam um guindaste cancelando portagens num qualquer cinema ao ar livre,

Eu sentia-me feliz, muito

Quando descia a rua dentro de uns calções de pano, sentia-me um longínquo menino à procura de sonhos, e fumei heroína acreditando hoje

Que procurava esses mesmos sonhos.

Quase morri, e sonhos

Não os vi.

Descia a rua acreditando que se subisse as treze escadas em madeira,

Tinha os braços da Primavera para me emparar,

Depois de uma noite de enganos, porque toda a minha vida foi um grande engano,

Começando com o meu nascimento. Nasci em Janeiro num principio de manhã alimentada pelo sorriso do sol, começava a ficar calor

Abri os olhos, e nunca tinha visto em toda a minha vida, que já vai longa, mulher tão linda, como aquela que me olhava

Era a minha mãe.

Descia a rua acreditando que não voltava mais aos teus braços, mas logo que chegava a casa

Queria estar novamente nos teus braços. Acreditava

Quando descia a rua

Descia a rua transportando na algibeira dos calções os olhos do mar, ele

Ele só queria voar sobre os teus olhos de mar!

Conseguirá o menino voar?

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