domingo, 1 de outubro de 2023

O eu sofrido

 Sirvo-me e pergunto-me de que me sirvo

Se não há nada para me ser servido

Penso

E nada há para pensar

A não ser

Servir-me

Do que não me serve

 

Sirvo-me do quarto com serventia

Com acesso à casa de banho

Um par de sapatos

Que já não me servem

E servir-me daquilo que deixou de me servir

 

Sentado

Não me serve

Nem me serve o devido ser-me servido

No entanto

Penso

Que já nada me serve

 

Nem este pobre lenço

Que só servia para esconder baba e ranho

Não

Não me serve ficar sentado

Servindo-me disto e daquilo

Coisas que às vezes

Servem

Que outras vezes

Deixam de servir

 

E sirvo-me quando me pergunto

De que me serve tudo

Não me servindo nada

Não me servindo o pouco

Penso

Que não me serve pensar

Porque me cansa

Porque me faz chorar

Pensar

Que me sirvo

Não me servindo

Tão pouco sei se me posso servir

Desse pedaço de bolo

Que não me serve para nada

Apenas para saciar a minha fome

Que tem nome;

Serve-me por favor algo que ainda não tenha sido servido.

O sofrido servido do triste sofrido

O eu, o eu fodido.

 

 

01/10/2023

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