30 junho 2026

A casa

A casa ausenta-se e me diz que a rua pertence a deus, adeus

Deus da casa e do quiosque

Quando o vinho leva água

E quando a chuva é maresia

 

Sentida na vagina de um livro

O poema é uma merda

Como sempre como assado

E que ontem era cansaço sábado

 

A casa é deus

Que tomba sobre a erva daninha de uma sanzala

Ala neurológica do gemido

O grito na escuridão

 

A cama é ginástica debruçada sobre o soalho

Vidente

O sente quando sentir o verniz da espada

Sobre o peito é apenas um feixe de luz

 

30/06
22:15

rua das amoreiras

quase que o sítio

é um esconderijo com múltiplas janelas

porcelanas várias

flores e donzelas

portas

escadarias

arrumações,

 

pindérico

abstracto o azulejo número quatro

da rua das amoreiras

este sítio fedorento

arruaceiro e temido

o dia

e a noite de ser poeta solitário,

 

as árvores são pássaros com raízes

abraçam a terra

e brincam com a chuva

a maré que é destra e mãe

das invisíveis estrelas

que são sítios

sítios sós.

 

30/06
22:00

Cesariny e o retrato rotativo de Genet em Lisboa

ao lusco-fusco mário
quando a branca égua flutua ali ao príncipe real
as bichas visitam-nos com as suas cabeças ocas
em forma de pêndulo abrem as bocas para mostrar
restos de esperma viperino debaixo das línguas e
com o dedo esticado acusam-nos de traição

sabemos que estamos vivos ou condenados a este corpo
cela provisória do riso onde leonores e chulos
trocam cíclicos olhares de tesão e
ficamos assim parados
sem tempo
o desejo diluindo-se no escuro à espera
que um qualquer varredor da alba anuncie
o funcionamento da forca para a última erecção

lá fora mário
longe da memória lisboa ressona esquecendo
quem perdeu o barco das duas ou se aquele que caminha
será atropelado ao amanhecer ou se o soldado
que falhou o degrau do eléctrico para a ajuda fode
ou ajuda ou não ajuda e se lisboa num vão de escadas
é isto
tão triste mário sobre o tejo um apito

- Al Berto

É apenas o começo da noite

Ubuntu

Cu

Côdea pão foda ou canelada

Vagina submersível

Foguetão para Marte

Clitóris em apuros

E isto

É apenas o começo da noite.

 

30/06
01:05

A última esfera da galáxia

Restava a última esfera da galáxia

Lá dentro o código mortal

Em verso

Ele hesita

Abro a esfera

Não abro a esfera,


PUM.


30/06
00:59

29 junho 2026

É tempo de o tempo se enforcar

É tempo de o tempo se enforcar

Pronto

Ficamos sem tempo

Parados no suicidado tempo

 

É tempo de o tempo ser vento e lezíria

É tempo de o tempo ser nuvem ardente

Cinzenta

Fogo

 

Sanzala desarrumada

Capota de capoeira

É tempo de o tempo ser

Olha – ser uma espetada, mista

 

Cubata e prata, e alicate de corte

Digam ao tempo para se matar, e deixar

Parado o tempo

Porque para olhar o mar não preciso de tempo

 

Nem de relógio a apitar

É tempo de o tempo zarpar

Ir

Ir e nunca mais voltar, a este mar.

 

29/06
22:11