ao lusco-fusco mário
quando a branca égua flutua ali ao príncipe real
as bichas visitam-nos com as suas cabeças ocas
em forma de pêndulo abrem as bocas para mostrar
restos de esperma viperino debaixo das línguas e
com o dedo esticado acusam-nos de traição
sabemos que estamos vivos ou condenados a este corpo
cela provisória do riso onde leonores e chulos
trocam cíclicos olhares de tesão e
ficamos assim parados
sem tempo
o desejo diluindo-se no escuro à espera
que um qualquer varredor da alba anuncie
o funcionamento da forca para a última erecção
lá fora mário
longe da memória lisboa ressona esquecendo
quem perdeu o barco das duas ou se aquele que caminha
será atropelado ao amanhecer ou se o soldado
que falhou o degrau do eléctrico para a ajuda fode
ou ajuda ou não ajuda e se lisboa num vão de escadas
é isto
tão triste mário sobre o tejo um apito
- Al Berto
30 junho 2026
Cesariny e o retrato rotativo de Genet em Lisboa
É apenas o começo da noite
Ubuntu
Cu
Côdea pão foda ou
canelada
Vagina submersível
Foguetão para Marte
Clitóris em apuros
E isto
É apenas o começo da
noite.
30/06
01:05
A última esfera da galáxia
Restava a última esfera
da galáxia
Lá dentro o código mortal
Em verso
Ele hesita
Abro a esfera
Não abro a esfera,
PUM.
30/06
00:59
29 junho 2026
É tempo de o tempo se enforcar
É tempo de o tempo se
enforcar
Pronto
Ficamos sem tempo
Parados no suicidado
tempo
É tempo de o tempo ser
vento e lezíria
É tempo de o tempo ser
nuvem ardente
Cinzenta
Fogo
Sanzala desarrumada
Capota de capoeira
É tempo de o tempo ser
Olha – ser uma espetada,
mista
Cubata e prata, e alicate
de corte
Digam ao tempo para se
matar, e deixar
Parado o tempo
Porque para olhar o mar
não preciso de tempo
Nem de relógio a apitar
É tempo de o tempo zarpar
Ir
Ir e nunca mais voltar, a
este mar.
29/06
22:11
A quadrilha em quatro navios ausentes
A quadrilha em quatro
navios ausentes
Fardados a rigor, de
braço dado
Dado enquanto há tesão e
um pouco de licor
Montes
Vales clandestinos, e
outros quantos navios
Ausentes, meninos
Em flor
À janela do abismo
A lâmpada se acende por
ela
Que é tão mandada, tão
ranhosa
Que mal sente a minha
presença
Zás
Se acende a lâmpada
A lâmpada zás
Traz
Zás
Vírgula, a quadrilha toda
à casa de banho, em fio
Sentindo o sentido, se
erguendo na teimosia de uma retrete turca
De
Ser
O
Gato preto, o meu
falecido negrito
Foi ele, foi ele
Desde então têm sido só
azares
Só não morri quando me caiu
o OVNI em cima
Porque
Porque tenho sete vidas e
estava sentado, ora
O OVNI aterrou mesmo tão
pertinho de mim, que
Sendo eu a origem do
sistema de eixos cartesianos, o
O OVNI ficou de mim, X=0,
Y=-0,001, Z=-0,01, em milímetros, Claro
E se isto é claro, clara
era a noite, da Clara
A quadrilha em quatro
navios ausentes
Fardados a rigor, de
braço dado
Dado enquanto há tesão e
um pouco de licor
Montes
Aos montes e montes
A alvenaria do destino
E se isto é claro, clara
era a noite, da Clara
Outro tiro; água.
29/06
22:00
Uma vírgula em paixão
Uma vírgula em paixão
Avassalou o destino
O destino da mão
Ser mão e ser menino
Mas a vírgula não queria
ser a paixão
Ela apenas queria voar na
dor
Sem coração
E sem amor
29/06
21:35
Viver entre pinhais E dunas,
Viver entre pinhais
E dunas,
Entre pedras mortas
E riachos sem rumo,
Viver no canto do mundo
E saber que do outro lado
do rio
Há outro viver
E outro novo mundo,
Saber viver entre os
pinhais
E de outro rio a correr
Viver entre os pinhais
E dunas.
29/06
01:09